CAMINHOS DA INTEGRAÇÃO CATARINENSE
DO CAMINHO DAS TROPAS À RODOVIA BR 282

Autor: Antônio Carlos Werner

 


INTRODUÇÃO

  

         Já há alguns anos sabíamos do interesse do engenheiro civil Antônio Carlos Werner pela história da “Estrada de Lages”. Como Diretor Geral do DER – Departamento de Estradas de Rodagem de Santa Catarina, nomeado pelo governador Antônio Carlos Konder Reis, com atuação de 15 de março de 1975 à mesma data de 1979, teve possibilidade de adquirir significativo conhecimento do trajeto rodoviário entre Florianópolis, no litoral, a Lages, no planalto catarinense. Nesta função, muito se dedicou para a viabilização da implantação da rodovia BR 282, considerada principal elo de unidade catarinense e grande propulsora do desenvolvimento do estado.

 
        Antônio Carlos Werner dedicou quase toda sua vida profissional a estudar, projetar e construir estradas de rodagem. Formado em 1955 pela Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná foi, inicialmente, Engenheiro Residente do DER e, após, sucessivamente responsável pela construção de trechos da BR 101, titular de escritório particular de planejamento e projetos, professor de disciplinas na área de transportes na Universidade Federal de Santa Catarina e Diretor Geral do DER-SC. Após, foi posto à disposição do Ministério dos Transportes para o exercício da função de Coordenador dos Corredores de Exportação de Santa Catarina, tendo se aposentado como engenheiro civil após estas atividades.

        Nos últimos anos de sua vida, Antônio Carlos Werner dedicou-se a pesquisas sobre os primeiros caminhos de Santa Catarina. Igualmente estudou a evolução das vias e meios de transporte, das tropas ao asfalto, sobretudo o segmento compreendido entre Florianópolis a Lages. Segundo Werner “esses estudos e os da própria colonização catarinense são, obviamente, indissociáveis”[1].

        Esta indissociabilidade dos temas de sua pesquisa despertou-lhe grande interesse pelo estudo e difusão da história regional, em cujo contexto estavam inseridos seus ascendentes, participantes da fundação da Colônia alemã São Pedro de Alcântara[2], em 1829. Desta forma, tomou para si, durante mais de 20 anos, a responsabilidade de reunir o maior número possível de fontes bibliográficas sobre a “Estrada de Lages”, ordenando sistematicamente as informações obtidas e sob forma de livro, socializando os resultados.

        Já aposentado, o autor passou, durante aproximadamente 9 anos, reunindo e sistematizando a bibliografia pertinente a seu objeto de pesquisa no que foi auxiliado por seu sobrinho João Ricardo Jordan. Nesse ínterim, não raras vezes o encontramos em meio a inúmeras anotações no Arquivo e na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, entusiasmado e com farto sorriso motivados pelo resultado das buscas em variados códices documentais nos quais pesquisava. Vibrava intensamente com a descoberta de novas informações.

        A constante motivação por seu objeto de pesquisa foi mantida e renovada até que um câncer de pâncreas suprimiu-lhe as forças, levando-o ao óbito, em 07 de abril de 2001. Sua pesquisa histórica ficou inacabada, embora tenha dedicado todas as suas forças para vê-la concluída e publicada. Era este um de seus grandes sonhos – confessou-me, certa vez, enquanto pesquisávamos na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina. Visitei-o nos últimos dias de vida, ocasião em que reiterou a conveniência da publicação de sua obra.

        Em maio de 2002 fomos contactados pela Sra. Maria Amábiles May Werner, viúva do autor e pelo Engenheiro Civil Vitor Ildefolso de O. Thibes para analisar o estágio do trabalho desenvolvido. Foi quando assumimos a responsabilidade da adequação do texto original visando a publicação em forma de livro. A partir daí, iniciamos o árduo trabalho de percorrer todos os caminhos já trilhados pelo autor, buscando as necessárias fontes bibliográficas dos textos selecionados constantes no original que nos foi entregue. Consistiu num meticuloso trabalho de revisão de documento por documento. No projeto do autor, optou-se por deixar a ortografia original de sua época.

        
Devido às exigências do tema proposto, nosso trabalho baseou-se, sobretudo, em fontes oficiais, encontradas em grande parte no Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, na Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina e no Centro da Memória da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis. Relatórios dos Presidentes da Província, Relatórios do Ministério do Império, Ofícios de Engenheiros para Presidentes da Província, Requerimentos, Leis, Decretos e Jornais da época foram as principais fontes primárias pesquisadas pelo autor e por nós revisadas. Os Relatórios dos Presidentes da Província de Santa Catarina foram revisados a partir do Projeto de Imagens de Publicações Oficiais Brasileiras do Center for Research Libraries e Latin American Microform Project, disponíveis na Internet[3]. Além das fontes primárias, uma vasta bibliografia foi utilizada pelo autor sem, contudo, esgotá-la em quantidade e conteúdo, sendo por nós revisada.

        O trabalho original estava articulado em 30 capítulos. Mas, considerando a dispersão do tema e a repetição de determinados assuntos, entendemos que poderíamos, sem perda de conteúdo, reduzi-los para 22 no presente trabalho. Os primeiros capítulos abordam aspectos da formação do território catarinense; os subseqüentes, tratam sobre o processo de abertura da ligação litoral-planalto, contendo também fragmentos históricos de importantes historiadores sobre o tema. O autor também aborda a reabertura da estrada e a mudança do seu itinerário via vale do Cubatão, as observações do viajante Robert Avé-Lallemant, escritas em 1858, as constantes mudanças de itinerário contemplando ora uma, ora outra localidade e, por fim, a implantação da estrada de rodagem e sua disponibilização ao tráfego auto-motor.


        Para fazer constar e solidificar sobremaneira essa publicação, que reputamos como grande documentário, tal como foi concebida e executada, incluímos os anexos. Muitos deles não constavam do original, mas, por sua pertinência e conteúdo histórico relacionado ao objeto de pesquisa do autor, querendo brindar a história catarinense e incentivar novos estudos sobre o tema, fizemo-los constar nessa publicação. Esta nossa atitude se baseia na intenção de disponibilizar aos leitores importantes e pouco conhecidos documentos sobre a tão propalada implantação de uma estrada de rodagem ligando o litoral ao planalto catarinense.  


        O primeiro documento refere-se à viagem efetuada por Antônio José da Costa ao sertão da terra firme, em 1787; o segundo traz a memória de José Silvestre dos Passos, datada de 1813, sobre a abertura de uma estrada para Lages e estabelecimento de uma freguesia às suas margens; o terceiro, consta de uma memória sobre a abertura da estrada que comunica São José a Lages, escrita por Patrício Antônio de Sepúlveda Everard em 1838; o quarto, traz, em fac-símile, o termo de contrato celebrando a realização de estudos técnicos e orçamento de uma estrada de rodagem de São José a Lages, datado de agosto de 1875; o quinto, é relatório da Estrada de Lages de autoria do Presidente da Província de Santa Catarina, Fausto de Sousa, de setembro de 1888; o sexto, apresenta um breve histórico da construção da BR 282, de autoria de Antônio Carlos Werner, datado de novembro de 1978; o sétimo, traz um memorial  descritivo da Colônia Militar Santa Teresa e do Caminho de Lages; o oitavo, mostra o curriculum-vitae de Antônio Carlos Werner e depoimentos sobre sua pessoa; o nono é composto pelo texto de uma palestra que o autor faria sob o título “A integração de Santa Catarina através das estradas de rodagem”, em julho de 2000; o décimo, é um artigo publicado no Jornal Gazeta de Lages, em 04 de fevereiro de 1893, sobre a Estrada de Lages; o décimo primeiro, traz um documentário e fotografias da BR 282,  bem como do autor desse livro.


        
Este trabalho de Antônio Carlos Werner tem mais um caráter de demonstração da importância do antigo Caminho de Tropas, hoje a BR 282, no contexto catarinense, do que de análise. Como grande documentário, não tem a pretensão de um texto acadêmico. Com sua leitura, evidenciar-se-á de uma forma direta e objetiva o papel de artéria vital dessa via de comunicação, a sua decisiva influência na integração regional como caminho de tropas, estrada carroçável ou rodovia asfaltada, durante mais de dois séculos de história.

  

 
DO CAMINHO DAS TROPAS À BR 282

 

                                                        Das estradas Provinciais é esta uma das

mais importantes, e que mais sacrifícios tem exigido.

                                                                                            Carlos Augusto Ferraz de Abreu[4] 

              


LITORAL E PLANALTO: AGRICULTURA E PECUÁRIA

 

        No século XVIII, com a fundação das freguesias de São José da Terra Firme e São Miguel, a imigração açoriana estimulou o desenvolvimento do litoral catarinense; a agricultura tomava impulso, a pesca abundava e as indústrias manufatureiras supriam as elementares necessidades da época.

        Já nos Campos de Lages situava-se a Vila de Nossa Senhora dos Prazeres das Lagens, fundada em 22 de novembro de 1766 por Antônio Corrêa Pinto de Macedo cumprindo determinação do Governador da Capitania de São Paulo. Os Campos de Lagens possuíam vasta extensão territorial e, sob a jurisdição da Capitania de São Paulo, sendo povoados predominantemente por paulistas. Estes tinham sua economia baseada, essencialmente, no comércio de gado, já que se localizava às margens do trajeto Sorocaba-Viamão. Formava-se, assim, a partir da fundação de Lages uma dualidade econômica: litoral e serra, agricultura e pecuária, respectivamente. Considerando as dificuldades impostas pelas Serras do Mar e Geral, a Vila de Lages e seus primeiros habitantes permaneciam sem ligação rodoviária com a capital catarinense. Com seus vastos campos, Lages, paulatinamente, se constituiu num centro regional de criação de gado, em que prevalecia o regime latifundiário, havendo identificação regional com a economia pastoril. Assim, a estrada Desterro-Lages, ou melhor, São José-Lages, merece estudos pela sua importância econômica e histórica na ligação litoral/planalto em Santa Catarina.


 

TENENTE MARINHO FEZ O COMEÇO
 

        Concebia-se, nesse contexto, a conveniência sócio-econômica e política de uma ligação rodoviária entre as Vilas de Nossa Senhora do Desterro, na Ilha de Santa Catarina e a de Nossa Senhora dos Prazeres das Lages, no planalto serrano. O Capitão-mor regente em Lages, Antônio Corrêa Pinto de Macedo, após reiterados apelos, conseguiu que o Coronel Pedro Antônio da Gama de Freitas, então Governador da Capitania de Santa Catarina, ordenasse, em 1776, que o Tenente José Luiz Marinho[5], chefiando um grupo de desbravadores, abrisse uma picada exploratória em direção ao planalto serrano. Ele o fez a partir da foz do Rio Cubatão, na baía sul da Ilha de Santa Catarina chegando, inclusive, a elaborar, ainda que por estimativa, um mapa em que constava o itinerário seguido e a localização de campos que descobriu. Assinalou ainda a existência, para o outro lado da serra geral, de novos campos, cuja jurisdição passou a reclamar o Governador catarinense, pois estariam sendo usurpados e povoados por paulistas residentes na região de Lages.

        O projeto da pretendida ligação rodoviária exigiria um sem-número de sacrifícios, além de um melhor conhecimento da região, o que pode justificar a demora para o início de sua implantação. Por outro lado, com a invasão da Ilha de Santa Catarina pelos espanhóis em 1777, ficou evidenciada a necessidade da abertura e implantação de novas e estratégicas estradas na Capitania. Mas, devido ao falecimento do Tenente Marinho, as explorações e a abertura da picada-mestre foram paralisadas, sendo reiniciadas somente dez anos depois, em 1787.            



O TRAÇADO ORIGINAL

 

        Em 1779, Dom Luiz de Vasconcellos assumiu o cargo de 4º Vice-Rei do Brasil. Seu antecessor, Dom Luiz de Almeida Portugal, Marquês do Lavradio, havia determinado que se estudasse a sugestão do Governador de São Paulo de se abrir a estrada Desterro-Lages, sobretudo por motivos de ordem militar. Somente em 1786 o novo Vice-Rei ordenou ao Governador de Santa Catarina, José Pereira Pinto, que tratasse de implantar o caminho. Foi, então, Antônio José da Costa incumbido de estudar o terreno e fazer a picada inicial para a abertura da estrada.

        Outras explorações posteriores foram realizadas, com a finalidade de determinar o traçado do caminho, pelos Alferes Antônio José da Costa e João de Betancourt Pereira Machado e Sousa. O primeiro, iniciando expedição exploratória a partir do vale do Maruim em 11 de janeiro de 1787, penetrou o sertão duas vezes, abrindo picada para o indicado fim.  Era o recomeço da estrada, já aventada pelo tenente José Luiz Marinho. Começou, assim, a saga da hoje conhecida BR 282, a moderna via rodoviária de integração entre o oeste do estado e o planalto serrano com o litoral e a capital catarinense, desenvolvendo-se esta ao longo de mais de dois séculos de percalços e lutas políticas.

        Terminadas as explorações introdutórias e demonstrada a exeqüibilidade da obra, era preciso iniciá-la. O Governador da Capitania de Santa Catarina remete cópia do roteiro seguido pelo Alferes Costa e solicita a indispensável autorização ao Vice-Rei do Brasil, o qual aquiesce em 31 de outubro de 1787.

        Já o Alferes João de Betancourt Pereira Machado e Sousa, em 20 de dezembro de 1787, fez o reconhecimento da picada aberta por Alferes Costa e, por considerá-la excessivamente extensa (17,5 léguas) e tortuosa, mostrou a praticidade do trajeto do caminho via Vale do Cubatão em detrimento ao do Maruim. 

A ESTRADA É IMPLANTADA 

        Estrategicamente, antes do início das obras, o Capitão Antônio Marques Arzão retificou o traçado original, acrescentando emendas e atalhos que se reconheciam necessários para diminuir a distância entre as duas Vilas. Tudo pronto, a futura da estrada entrou em concorrência pública em 14 de outubro de 1788.

        Com o respaldo do Vice-Rei do Brasil, coube sua construção aos Alferes Antônio José da Costa e Antônio Marques Arzão. Eles iniciaram a obra “definitiva” em 14 de novembro de 1788, a partir da Guarda do Rio Maruim até a fronteira da Capitania de Santa Catarina com a de São Paulo na localidade Castelo-Melhor, ao poente da Serra Geral. Concluíram-na em 6 de dezembro de 1790, numa extensão de 16 léguas e 560 braças[6], sendo entregue ao Procurador da Câmara do Desterro.             

 

O PLANO DE COLONIZAÇÃO

 

        O Governador da Capitania de Santa Catarina, Coronel Manoel Soares Coimbra, elaborou um plano defensivo à Ilha de Santa Catarina, planejando a instalação de dois núcleos coloniais no caminho para Lages. Os planejados núcleos coloniais seriam constituídos por soldados casados e por lavradores, tendo em vista fins militares. Concebia-se que os militares, além de afugentar os gentios, dedicar-se-iam às tarefas agrícolas e bélicas constituindo-se potenciais mecanismos de defesa da Capitania. Alguns anos depois, devido a desentendimentos administrativos, o Governador Manoel Soares Coimbra foi levado preso a Portugal, inviabilizando a implantação dos núcleos coloniais.           

        O Tenente-Coronel João Alberto Miranda Ribeiro, sucessor de Coimbra no executivo provincial, revigorou o plano e reivindicou ao Vice-Rei sua exeqüibilidade, solicitando, inclusive, a alocação de recursos financeiros no orçamento da Província para viabilizá-lo. O Governador insistiu junto ao Governo constituído no Rio de Janeiro sobre a importância estratégica das fundações dos núcleos coloniais, mas o Conde de Rezende, Dom José Luiz de Castro, não deu maior importância e frustou o projeto. Com a morte prematura do Tenente-Coronel Ribeiro, a partir de 1800, os planos da instalação dos núcleos coloniais e da implantação da ligação rodoviária litoral-planalto, entraram em prolongada hibernação, estendendo-se por 28 anos. Em 1813, Silvestre José dos Passos salienta a importância da reabertura da estrada e reforça a idéia da fundação de duas freguesias habitadas por açorianos[7].

        Em 1797, Paulo José Miguel de Brito, passou pela Ilha de Santa Catarina, voltando anos mais tarde como ajudante de ordens do Governador da Capitania. Ao deixar o cargo, regressou para o Rio de Janeiro, onde, em 1816, escreveu a sua famosa “Memória Política”, publicada em 1829, retomando as idéias de Silvestre José dos Passos, publicadas em 1813. Brito dedicou cerca de sessenta, ou seja, um terço do livro, à demonstração da urgente necessidade de ligar, através de uma boa estrada, as Vilas do Desterro de Lages, incorporando esta última a Santa Catarina, providência que, segundo Brito, era realmente indispensável e sem ela nunca poderia prosperar a Capitania catarinense.

        Brito faz uma planta com o traçado da estrada e localização de Colônias, recomendando que os colonizadores fossem de açorianos. E, para levar avante o seu empreendimento, sugere a organização de uma companhia de acionistas que se encarregará de mandar abrir a estrada e povoá-la em ambos os lados. Nesse ínterim, a decadência da estrada foi tão significativa que, em 1813, poucos vestígios eram encontrados. Ela somente foi restabelecida, provisoriamente, com a chegada dos imigrantes alemães que, em março de 1829, fundaram a Colônia São Pedro de Alcântara.

        Em 1822, em 7 de setembro, o Brasil se emancipou de Portugal. Era sua independência político-administrativa A Província de Santa Catarina enviou missão especial ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil, para prestar ato de obediência e homenagem ao Monarca Dom Pedro I, o protagonista da maioridade brasileira como Estado independente. O Imperador recebeu-a em dia 22 de novembro e, após as devidas homenagens, João de Bitancourt Pereira Machado e Sousa, membro do Governo Provincial de Santa Catarina, fez um discurso perante o Imperador e entregou a José Bonifácio um memorial a qual reivindicava o primeiro e o mais importante pedido da Província de Santa Catarina: a comunicação rodoviária com a Vila de Lages. E, enfim, advogada a ligação entre Desterro e Lages, indica a posição geográfica de ambas e as distâncias que as separam, dentro do percurso existente no “caminho” aberto pelo alferes Antônio José da Costa e Antônio Marques Arzão.

        O orador faz a sua proposição para a reconstrução da estrada e sua conservação, propondo um empréstimo, dividido em “ações de 100$000 cada uma”, ficando o rendimento da estrada hipotecado, estabelecendo-se cobradores no Trombudo e no Maruim[8]. Propõe o estabelecimento de duas povoações ao longo da estrada, baseado nas “indagações” de Antônio José da Costa, que seriam no Garcia e no Rio Itajaí[9] e “para estas (povoações) pedir-se-ia a Sua Majestade Imperial a mercê de dois destacamentos de tropas, que vão começar duas colônias militares”. E, ainda, ressalva a isenção do serviço militar para os moradores “desde a guarda do Maruí até o Trombudo”[10]. Estas eram as idéias do Primeiro Presidente da Província de Santa Catarina, João Antônio Rodrigues de Carvalho[11]. 

 

AS COLÔNIAS SÃO INSTALADAS

 

        Paulatinamente, como se verá adiante, suas idéias serão levadas a efeito: entre 1829 a 1860, três marcos vão se implantar ao longo do caminho de São José (ou Desterro) a Lages: em 1829, a Colônia São Pedro de Alcântara; em 1854, a Colônia Militar Santa Teresa e, em 1860, a Colônia Nacional Angelina, a primeira e a terceira em locais indicados, já em 1790, por Antônio José da Costa. Não se tratam de freguesias – fundadas com açorianos oriundos das freguesias adjacentes – como reivindicou Silvestre José dos Passos em 1813, mas de Colônias baseadas na pequena propriedade e fundadas por imigrantes europeus. 

     

ESTRADA DE RODAGEM

 

        Somente no fim da década de 1880 deu-se início à implantação da estrada de rodagem ligando Desterro a Lages. Foram construídos os primeiros 50 quilômetros até Teresópolis, no vale do Cubatão, por ordem do então Governador Augusto Fausto de Sousa. Como deixou o governo no início de 1889, seus sucessores imediatos desacreditaram o projeto, subestimando sua continuidade. Em 1894, a estrada foi retomada pelo governador Hercílio Pedro da Luz, recebendo retificações em vários segmentos.                                    

 

IMPLANTAÇÃO E PAVIMENTAÇÃO DA BR 282[12]

 

        Por mais de meio século, embora precariamente, a estrada cumpriu sua função. Jorge Lacerda, durante os dois anos em que governou o Estado de Santa Catarina (1956-1958), estava determinado em realizar estudos e elaborar um projeto para a implantação e pavimentação asfática da estrada Florianópolis-Lages[13]. Para coordenar esse processo, designou, em junho de 1957, o engenheiro civil Antônio Carlos Werner[14]. Faleceu o governador antes de ver seu intento realizado. E novamente o projeto foi adiado.

        
Em janeiro/fevereiro de 1977 foram iniciadas a implantação e pavimentação da estrada agora com o nome de BR 282[15], a partir de Bom Retiro, como conseqüência da articulação de Antônio Carlos Werner e Antônio Carlos Konder Reis, respectivamente Diretor do DER – Departamento de Estradas de Rodagem – e Governador do Estado de Santa Catarina. Embora de categoria federal, coube ao Estado, em convênio com a União, executar parte do projeto. A partir dessa data as obras de implantação da rodovia tomaram fôlego; diversos trechos tornaram-se canteiros de obras: Bom Retiro (Bom Retiro-Alfredo Wagner), em janeiro/fevereiro de 1977; Águas Mornas (Vargem Grande-Acesso a Caldas da Imperatriz); Rancho Queimado (Alto da Boa Vista-Barra do Rio dos Bugres) em novembro de 1978[16]. Sobre o início das obras da rodovia que pode “ser considerada, pela sua posição estratégia, como espinha dorsal das comunicações rodoviárias do Estado”[17] disse a imprensa:

 

Finalmente surge, não mais como esperança, mas como fato concreto, a BR 282. A importância desta obra assume proporções de realce, pois propiciará o desenvolvimento econômico de uma área de aproximadamente 500 Km2.[18]

Para facilitar a execução dos trabalhos, as obras foram dividias em etapas, sendo a primeira o trecho que vai de Lages ao Rio Canoas, com 47 quilômetros de extensão, coincidindo em parte com a então BR 475. O outro que vai o Rio Canoas até a BR 101, no litoral, numa extensão de 143 quilômetros. Este trecho ficou sob a responsabilidade do DER/SC, aquele do DNER[19].

        
Sucederam-se governantes, reiteram-se promessas, mas as obras pouco evoluíram nesta que é considerada a rodovia transversal[20] de Santa Catarina, cuja denominação rende homenagem a Ulysses Guimarães[21]. A última fase de pavimentação da BR 282, trecho Santo Amaro da Imperatriz até a BR 101, somente foi entregue ao tráfego pelo governador Esperidião Amin Helou Filho, em 14 de janeiro de 2002[22].

 

 

APÓS DUZENTOS ANOS, A INTEGRAÇÃO 

 

        Passados mais de 200 anos do início de sua “abertura”, a história constata que esta estrada nem sempre mereceu atenção e conservação à altura de sua importância estratégica para o desenvolvimento sócio-econômico do Estado de Santa Catarina[23]. A transformação de uma simples trilha em caminho-de-tropa e daí em estrada carroçável e pavimentada, é uma longa história objeto desse livro.

        
A ligação rodoviária entre o planalto e o litoral, memorável para a época, foi escrita por muitos com letras de sacrifícios, determinação e constância. Reivindicado por muitos, o antigo caminho das tropas, levou quase dois séculos para se tornar um caminho comodamente transitável. Nos dias atuais, constata-se a integração socio-econômica e, porque não, política e cultural, de Santa Catarina em suas várias regiões de economia diversificada. A transformação da “picada” em caminho carroçável e, deste em estrada para automóveis e, posteriormente, sua pavimentação com a denominação de BR 282, nos colocam diante do seu papel de artéria vital para o desenvolvimento regional, e demonstram sua importância decisiva em termos sociais e econômicos para Santa Catarina. Boa leitura!

           

           

Toni Vidal JOCHEM
Organizador do Livro

Mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e
Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

 

Palhoça-SC, Maio de 2004

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NOTAS DE FIM

[1] Correspondência encaminha pelo autor, ao organizador deste livro, em 25 de janeiro de 1999.


[2]
Trata-se do imigrante Johann Peter Werner e Anna Geise. Eles, juntamente com seus seis filhos: Anna Maria, Peter, Nikolaus, Peter Joseph e Johann Joseph, mais 140 famílias de emigrantes embarcaram em Trier, na Alemanha, em 1828, para iniciar a grande viagem que os trouxe para o Brasil. Do porto fluvial de Trier navegaram até Koblenz, e depois, Reno abaixo, seguindo alguns trechos por terra, até Bremen, em cujo porto embarcaram no veleiro Johanna Jakobs. Desembarcaram no Rio de Janeiro e de lá seguiram para Santa Catarina a bordo do brigue Marquês de Vianna chegando em Desterro, hoje Florianópolis, a 12 de novembro de 1828. A 28 de maio de 1829 foram instalados na Colônia São Pedro de Alcântara. Jornal da Família Werner, s/l, edição de 21 de novembro de 1991, pp. 1-4.


[3]
Projeto de Imagens de Publicações Oficiais Brasileiras do Center for Research Libraries e
Latin American Microform Project. O Latin-American Microform Project (LAMP) no Center for Research Libraries (CRL), patrocinado pela Fundação Andrew W. Mellon, produziu imagens digitais de séries de publicações emitidas pelo Poder Executivo do Governo do Brasil entre 1821 e 1993, e pelos governos das províncias desde as mais antigas disponível para cada província até o fim do Império em 1889. O projeto proporciona acesso via Internet aos documentos facilitando, assim, a sua utilização por pesquisadores. Os documentos brasileiros foram escaneados a partir de cópias em microfilme dos originais constantes na Biblioteca e/ou Arquivo Nacional. http://www.crl.edu/content/pindex.htm


[4]
SANTA CATARINA (Província). Presidente (Ferraz de Abreu). Relatório... de 02 de abril de 1869, p. 28. INTERNET.


[5]
José Luiz Marinho era filho de João Vieira de Melo. Natural de Salvador do Monte, Bispado do Porto, faleceu em fins de 1783 ou começos de 1784. Casado com Clara Rosa de Betancourt. Cf. CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Raízes Seculares de Santa Catarina, 1948, p. 91. Em 02/06/1753 José Luiz Marinho teve a concessão de uma Carta de Sesmaria com a extensão de 1.400 braças quadradas “na paragem do Cubatão da terra firme”. Em 11/07/1772 foram concedidas 750 braças quadradas a Manoel Miranda Bitancourt na margem do Rio Cubatão, através de Carta de Sesmaria. Cf. Registro de Sesmaria de 1753 a 1806, respectivamente, p. 1 e 22v. APESC.


[6]
Seriam, aproximadamente, 110 quilômetros de extensão. O caminho tinha a largura de 15 palmos nas margens e 10 palmos nas montanhas e lugares com terreno pedregoso, e onerou os cofres públicos em 8:008$871 réis quantia esta paga em 10 parcelas.


[7]
PASSOS, Silvestre José dos. “Memória sobre a abertura...”. O Patriota: Jornal Litterario..., Rio de Janeiro; ano 1, n.1, pp. 23-31, março de 1813. BN. Essa Memória vem publicada no Anexo II desse livro.


[8]
CARVALHO, João Antônio Rodrigues de. “Projeto de uma estrada da cidade de Desterro...” Revista Trimestral de História e Geografia (IHGB). 7:534-550, 1866. Referência p. 545.


[9]
Ibid., p. 544, nota 25.


[10]
Ibid., p. 546.


[11]
PIAZZA, Walter. “Os Presidentes da Província de Santa Catarina. O Ministro João Antônio Rodrigues de Carvalho”. Anuário Catarinense. Florianópolis, 1954, separata, 8p.


[12]
A BR 282 inicia-se em Florianópolis e tem seu término em São Miguel do Oeste. Este estudo abrange somente um segmento dela, ou seja, de Florianópolis a Lages.


[13]
Jornal do DER/SC – Departamento de Estradas de Rodagem. Florianópolis, novembro de 1978, p. 11. BDEINFRA.


[14]
AA.


[15]
A atual BR 282, no trecho Florianópolis-Lages, já foi denominada de acordo com os diversos Planos Rodoviários Estaduais e Federais de SC 22, BR 36 e SC 282.


[16]
Jornal do DER/SC – Departamento de Estradas de Rodagem. Florianópolis, novembro de 1978, p. 10. BDEINFRA.


[17]
Ibid., outubro de 1976, p. 14. AA. Cf. tb. Jornal de Santa Catarina, 01 de maio de 1979, p. 17. AA.


[18]
Ibid., setembro de 1976, p. 2.  BDEINFRA.


[19]
DNER – Departamento Nacional de Estradas de Rodagem. Jornal do DER/SC – Departamento de Estrada de Rodagem. Florianópolis, fevereiro a junho de 1979, p. 12. BDEINFRA.


[20]
Transversais são as rodovias que cortam o país na direção Leste-Oeste. Nomenclatura: BR-2XX. Primeiro Algarismo: 2 (dois). Algarismos restantes: A numeração varia de 00, no extremo norte do país, a 50, na Capital Federal, e de 50 a 99 no extremo sul. O número de uma rodovia transversal é obtido por interpolação, entre 00 e 50, se a rodovia estiver ao norte da Capital, e entre 50 e 99, se estiver ao sul, em função da distância da rodovia ao paralelo de Brasília. Exemplos: BR-282. Fonte: DNIT.


[21]
Lei Federal No 9.875, de 25 de novembro de 1999. Denomina "Rodovia ULYSSES GUIMARÃES" a BR-282, que se estende do litoral de Santa Catarina até o extremo oeste do Estado, na fronteira com a Argentina. Diário Oficial da União, de 26 de novembro de 1999, p. 1. Entretanto, a Lei Estadual n. 6.946, de 08 de maio de 1987, determina que “Fica denominada a estrada BR 282, partindo do Extremo Oeste de Santa Catarina atingindo a Capital do Estado, em toda a sua extensão de Rodovia Presidente Nereu Ramos”. Diário Oficial do Estado de Santa Catarina, de 12 de maio de 1987, p. 4.


[22]
Jornal A Notícia. Joinville-SC, de 14 de Janeiro de 2002. BPESC.


[23]
Veja artigo sobre a generosidade da BR 282 como cabo eleitoral a centenas de candidatos de todas as agremiações político-partidárias ao longo de 200 anos de história. Cf. VOGEL, Daisi. “O Caminho das Urnas”. In: Revista Veja. São Paulo, suplemento especial de Santa Catarina, Ano 24, Nº 32, p. 6-9, de 7 de agosto de 1991.

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SUMÁRIO DO LIVRO

Prefácio..................................................................................................................................11

Introdução..............................................................................................................................13

Capítulo I
A Formação do Território Catarinense.........................................................................................23

Capítulo II
Caminhos do Sul.......................................................................................................................31

Capítulo III
As Póvoas do Desterro e de Lages.............................................................................................35

Capítulo IV
De Lages ao Litoral: Primeiro Caminho........................................................................................39

Capítulo V
Reconhecimento: Vale do Cubatão, Maruim – Trombudo...............................................................43

Capítulo VI
Trilha Pioneira...........................................................................................................................55

Capítulo VII
Fragmentos Históricos sobre a Estrada de Lages.........................................................................61

Capítulo VIII
O Desbravador Antônio José da Costa.........................................................................................65

Capítulo IX
O Projeto Concebido por Paulo José Miguel de Brito....................................................................69

Capítulo X
Caminho de Vida Curta..............................................................................................................75

Capítulo XI
Colonização sem a Estrada........................................................................................................79

Capítulo XII
Reabertura da Estrada São José – São Pedro de Alcântara –Lages...............................................83

Capítulo XIII
A Força do Vale do Cubatão.......................................................................................................99

Capítulo XIV
Robert Avé-Lallemant: Um Viajante da Estrada de Lages............................................................143

Capítulo XV
Estrada dos Campos do Figueiredo...........................................................................................149

Capítulo XVI
Muitos Desvios... Pouca Estrada... Descontinuidades, consertos e mudanças de itinerário............155

Capítulo XVII
Estrada de Rodagem Pioneira...................................................................................................179

Capítulo XVIII
Subindo a Serra: do Estreito ao Rio Adaga................................................................................187

Capítulo XIX
Construção Serra Acima: do Vale do Rio Adaga ao Trombudo.....................................................201

Capítulo XX
Transpondo a Serra Geral: pelos campos afora..........................................................................213

Capítulo XXI
Estrada de Ferro, Cargueiros e Carroceiros................................................................................221

Capítulo XXII
Do Transporte Auto-motor e da Conservação da Estrada.............................................................229

ANEXOS

ANEXO I – Derrota da viagem de Antônio José da Costa ao sertão da terra firme, da Ilha de Santa Catarina, em 1787......................................................................................................................243

ANEXO II – Memória sobre a abertura de huma estrada de communicação entre a Capitania de Santa Catarina e a Villa de Lagens, e estabelecimento de huma freguezia no sertão da terra firme da mesma Capitania, de José Silvestre dos Passos......................................................................................249

ANEXO III – Memória sobre a abertura da estrada que comunica a Vila de São José com a de Lages.......................................................................................................................................253

ANEXO IV – Termo de contrato celebrado [...] para os estudos technicos e orçamento de uma estrada de rodagem que, partindo da cidade de S. José, vá ter á de Lages ................................................257

ANEXO V – Estradas de Lages – Relatório do Presidente da Província de Santa Catarina Fausto de Sousa, datado de 1888...............................................................................................................261

ANEXO VI – Breve Histórico da construção da BR 282.................................................................281

ANEXO VII – Memorial descritivo da Colônia Militar Santa Teresa e sobre o Caminho de Lages........................................................................................................................................285

ANEXO VIII – Curriculum Vitae de Antônio Carlos Werner e depoimentos.......................................287

ANEXO IX – Documentário e Fotografias.....................................................................................299

ANEXO X – Documentos para a História......................................................................................319

ANEXO XI – Colônia Santa Teresa..............................................................................................323

ANEXO XII – Documentário e Fotografias....................................................................................333

ANEXO XIII – Depoimentos........................................................................................................391

Referências Bibliográficas.......................................................................................................405

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CAMINHOS DA INTEGRAÇÃO CATARINENSE
DO CAMINHO DAS TROPAS À RODOVIA BR 282

DESCRIÇÃO DO LIVRO:

Autor:
Antônio Carlos WERNER
Editora: Edição do Autor
ISBN:
85-903946-2-X
Quantidade de Páginas:
416
Capa: Colorida
Miolo: Preto e Branco
Formato: 16cm x 23cm (fechado)
Mais informações: livros@tonijochem.com.br

 

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