SÃO
PEDRO DE ALCÂNTARA
PRIMEIRA COLÔNIA ALEMÃ EM SANTA CATARINA |
"...
forçoso é concluir que não pequena
utilidade tem tirado a Província de Santa Catarina
com o estabelecimento da Colônia São Pedro
de Alcântara em seu território".(1) |
O
início do processo de colonização do
Brasil, com destaque para a região sul, foi uma decisão
política promovida por Dom João VI. Após
a tentativa de Pombal com os portugueses (açorianos),
o governo incentivou a colonização estrangeira
para, entre outras coisas, promover a dilatação
do vasto Reino, ocupar vazios demográficos (objetivo
estratégico), produzir alimentos (fins econômicos),
mas, basicamente, para instituir uma classe de pequenos proprietários
rurais, até então praticamente inexistente no
Brasil. A abertura dos portos, no memorável dia 28
de janeiro de 1808, teve, por conseqüência, a vinda
de inúmeros estrangeiros para o Brasil. Principalmente
europeus. Por isso, um edital do Príncipe Regente,
de 1808, permitia a imigração de não-portugueses,
além de dispor sobre a concessão de terras a
católicos de outras nacionalidades -- as chamadas sesmarias.
Assim, baseado na pequena propriedade familiar, a imigração
alemã esteve estreitamente vinculada ao sistema de
colonização brasileiro, cuja política
pautou-se na existência de conflitos nas fronteiras
internacionais devido às grandes áreas de terras
devolutas consideradas desabitadas - apesar da existência
de grupos indígenas e posseiros. Assim evidencia-se
que,
A
ocupação dessas terras tornou-se a principal
meta dessa política de colonização,
que alijou do processo os nacionais. Por outro lado,
o regime da pequena propriedade não interessava
aos grandes proprietários paulistas, que queriam
imigrantes trabalhadores rurais para substituir o braço
escravo...(2) |
Nesse
contexto, os alemães(3) eram considerados bons agricultores
e, portanto, imigrantes ideais para povoar vazios demográficos
no regime da pequena propriedade rural. Os estados alemães,
principalmente a Prússia, devido a seus problemas de
ordem interna, eram vistos como países eminentemente
potenciais para a emigração. Além disso,
o governo imperial acreditava que parte do fluxo imigratório
poderia, se tivesse uma política atraente, ser canalizado
para o Brasil, em detrimento de outros países. Era
o que o governo pretendia e, para isso, precisaria pôr
em prática uma efetiva política de "atração".
Implantando
um processo de colonização, em 1812, o governo
ensaiava seus primeiros passos neste sentido com a fundação
da Colônia Santo Agostinho, no Espírito Santo,
com açorianos; em 1818, a Colônia Leopoldina,
com alemães, na Bahia; em 1820, a de Nova Friburgo,
no Rio de Janeiro, com colonos suíços e, posteriormente,
alemães; em 1822, a Colônia de São Jorge
dos Ilhéus, no sul da Bahia. Todos os imigrantes instalados
nas citadas colônias foram introduzidos à custa
do governo brasileiro e contemplados com a doação
de terras.
Por
intermédio de um edital expedido em 25 de novembro
de 1814, Dom João VI convida os europeus, de uma forma
mais contundente, a emigrarem. Quatro anos depois, a carta
régia de 6 de maio de 1818 serviu de modelo para cláusulas
contratuais que estimulavam a emigração, pois
continha concessões substanciais aos imigrantes, tais
como: a) passagem livre por mar e por terra no Brasil; b)
doação de terreno com casa provisória;
c) para cada família de três ou quatro pessoas,
um boi de tração ou um cavalo, duas vacas leiteiras,
quatro ovelhas, duas cabras, dois porcos, sementes de trigo,
arroz, feijão, milho, linho de cânhamo e óleo
de rícino para lâmpadas. Exigia-se dos imigrantes
-- eram admitidos somente os que professavam o catolicismo
romano - que trouxessem um médico, farmacêutico
e dois a quatro religiosos. Comprometia-se o governo a construir
e equipar uma capela.(4)
Estimulando
ainda mais a emigração, mediante a instrução
de 16 de março de 1820, o governo acha por bem estabelecer
colônias no reino do Brasil, concedendo terras, por
doação, aos imigrantes. A cada família
cabia 160.000 braças quadradas (75 hectares), além
de um terreno para a comunidade e área para implantação
de uma cidade. Havia normas gerais a serem adotadas sempre
que um empreiteiro fundasse uma colônia: os colonos
ficavam isentos de impostos durante dez anos, mas estavam
obrigados - a exemplo dos demais súditos portugueses
- a pagar o quinto do ouro eventualmente descoberto, além
de taxas sobre mercadorias comerciáveis. Caso retornassem
à terra natal antes de decorridos dez anos de permanência
no Brasil, perderiam o direito ao terreno doado. Uma vez estabelecidos
na Colônia, prometia o governo, passavam a ser considerados
súditos do Rei - o que lhes conferia a nacionalidade
portuguesa - e a ter os mesmos direitos e prerrogativas conferidos
aos portugueses. Cada distrito colonial seria administrado
por um diretor nomeado pelo Rei, até que sua população
aumentasse ao ponto de se poder organizar uma pequena cidade,
com autoridades administrativas e judiciárias independentes,
conforme o direito português.
As
condições e exigências eram quase sempre
as mesmas para todas as Colônias fundadas após
essa época e foram, por longo tempo, seguidas pelo
governo central e, mais tarde, pelos governos das províncias.
Como novidades às cláusulas dos contratos posteriores,
propostas pelo governo para atrair a emigração,
traziam a liberação para a profissão
religiosa e o exercício do culto, sendo que os ofícios
divinos, por preceito constitucional, deveriam ser realizados
em residências ou em local destinado especificamente
para tal fim, porém que não apresentassem o
aspecto externo de igreja: torre, por exemplo. Ensino e escolas
não eram objetos de tais documentos contratuais, ficando
essa parte, exclusivamente, sob a responsabilidade dos imigrantes.
Durante
o decênio administrativo de 1821 a 1831, sob responsabilidade
do imperador D. Pedro I, a política imigratória
do governo brasileiro pouco conseguiu estimular a vinda para
o país de agricultores e artesãos europeus.
Por razões militares e estratégicas, após
a independência do Brasil, o governo imperial estimulou
o recrutamento, quer nas áreas de língua alemã
da Europa Central,(5) quer na Inglaterra e na Irlanda, de
soldados e marinheiros mercenários, destinados à
formação dos incipientes exército e marinha
brasileiros. E nisso, os seus agentes e funcionários
se tornaram culpados dos maiores abusos. Sob falsas promessas,
encobriam as cláusulas dos contratos pouco claras e
elásticas. Assim, a primeira Legião Estrangeira
(alemã), instalada no Rio de Janeiro, teve vida efêmera.
Foram
fundadas, também, colônias agrícolas de
norte a sul do Brasil por iniciativa de D. Pedro I. Além
das extintas colônias de Catuca, em Pernambuco, e São
Januário, na Bahia, citamos as colônias alemãs
de São Leopoldo, fundada em 1824; São Pedro
de Alcântara das Torres, fundada em 1826, no Rio Grande
do Sul; Santo Amaro e Itapecirica, em São Paulo, fundadas
em 1829; Rio Negro, no Paraná, em 1829; São
Pedro de Alcântara, em Santa Catarina, em 1829. Algumas
dessas fundações coloniais não foram
bem sucedidas apesar de serem projetos estatais baseadas na
doação de terras, cuja experiência não
era, em geral, de natureza que pudesse à imitação
induzir a emigração alemã. Assim, a política
de "atração" deixou a desejar em relação
aos seus imediatos propósitos.
O
esforço do governo em incrementar a imigração
alemã durante o Império tinha relação
direta com os interesses brasileiros de instalar no país
agricultores livres, "civilizados", em regiões
não ocupadas pelas grandes propriedades, sob o controle
do Estado. O não-desenvolvimento de algumas colônias
instaladas no litoral do Brasil central foi atribuído,
entre outros fatores, à inadequação dos
imigrantes aos trópicos. Esse fato levou o governo
a repensar as fundações coloniais, condicionando-as
para o sul do Brasil, onde, para arrematar, o número
de escravos era pequeno. Esta é uma das razões
que justificam, em parte, a existência de inúmeras
colônias alemãs nos estados do Rio Grande do
Sul, Santa Catarina e Paraná. Mas será Santa
Catarina, e nela a colônia São Pedro de Alcântara,
o objeto do presente estudo.
No
contexto do processo que culminou na fundação
da Colônia São Pedro de Alcântara, em 1828/29,
toda a Província de Santa Catarina constituía-se
de uma cidade: Desterro - a capital; três vilas: Laguna,
Lages e São Francisco.(6) Sendo sua população
predominantemente de origem lusitana.
À
mesma época, a única via de comunicação
ligando a freguesia de São José, localizado
no continente fronteiro à Ilha do Desterro, e, portanto,
também a capital da Província de Santa Catarina,
com a vila de Lages, no planalto serrano central, era a modesta
estrada de cargueiros que existia desde o final do século
XVIII. A abertura desse caminho principiara em 11 de janeiro
de 1787, quando, comissionado pelo governador José
Pereira Pinto, que para isso recebera ordem do vice-rei, D.
Luís de Vasconcelos e Souza, o alferes Antônio
José da Costa partiu de São José rumo
ao oeste, pela floresta impérvia, juntamente com 12
homens armados, 12 escravos e 7 bestas cargueiras, com a intenção
de alcançar a vila de Lages, onde efetivamente chegaram
a 15 de agosto do mesmo ano. O referido caminho assim aberto
seguia inicialmente pela margem esquerda do rio Maruí
(hoje também chamado de Maruim) e, depois, pela mata
virgem, até o planalto serrano.(7)
O
Governador da Capitania de Santa Catarina, Coronel Manoel
Soares Coimbra, movido pela sensatez, elaborou, estrategicamente,
um plano defensivo para a Ilha de Santa Catarina, planejando
a instalação de dois núcleos coloniais
às margens do Caminho-de-Tropas para Lages. Os planejados
núcleos coloniais seriam constituídos por soldados
casados e por lavradores, tendo em vista fins militares. Concebia-se
que os militares, constituídos em colônia, além
de afugentar os gentios, dedicar-se-iam às tarefas
agrícolas e bélicas, constituindo-se em potenciais
mecanismos de defesa para a Capitania em caso de emergência
ante a fúria dos inimigos, principalmente os espanhóis!
Alguns anos após, motivado por desentendimentos administrativos,
o Governador Manoel Soares Coimbra foi levado preso a Portugal,
inviabilizando a implantação dos núcleos
coloniais.
O
Tenente-Coronel João Alberto Miranda Ribeiro, sucessor
de Coimbra no executivo provincial, revigorou o plano e reivindicou,
veementemente, junto ao Vice-Rei, a sua exeqüibilidade,
solicitando, inclusive, a alocação de recursos
financeiros no orçamento da Província para viabilizá-lo.
O Governador insistiu junto ao Governo constituído
do Rio de Janeiro sobre a importância estratégica
das fundações dos núcleos coloniais,
mas o Conde de Rezende, Dom José Luiz de Castro, não
deu maior importância e frustrou o projeto. Com a morte
prematura do Tenente-Coronel Ribeiro, em 19 de janeiro de
1800, no Desterro, os planos de instalação dos
núcleos coloniais e da implantação da
ligação rodoviária litoral-planalto,
entraram em prolongada hibernação durante 28
anos. Em 1816, Paulo José Miguel de Brito, funcionário
do alto escalão do governo português, escreve
sua memória política sobre a capitania de Santa
Catarina onde faz constar uma planta com o traçado
da estrada para Lages e nela a localização de
colônias, recomendando fossem de açorianos. Mas
a estrada, bem como o projeto das citadas colônias,
não foram imediatamente executadas.
Para
reforçar a colonização e viabilizar a
ocupação de vazios demográficos, em setembro
de 1828, Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiros, Imperial
Inspetor da Colonização Estrangeira, teve autorização
para receber no porto do Rio de Janeiro o navio alemão
"Johanna Jakobs", que trazia, da Europa, centenas
de imigrantes para o Brasil.(8)
Eles
são convenientemente desembarcados e alojados na Armação
de São Domingos, no Rio de Janeiro, até o final
do mês subseqüente. Eram 523 imigrantes originários,
em sua maioria, da região de Eifel, localizada no sudoeste
da Alemanha, ao norte do Rio Mosela(margem esquerda).(9) Na
capital do Império foram acrescentados ao grupo de
imigrantes 93 homens liberados da chamada "Legião
Alemã",(10) o corpo da tropa de mercenários
alemães no Exército Imperial Brasileiro que
havia sido dissolvido naquela cidade, assim como 19 ex-integrantes
do 27º Batalhão de Caçadores de Santa Catarina,
igualmente dissolvido. Eram 146 famílias.(11) Totaliza-se,
assim, 635 pessoas. Do Rio de Janeiro foram despachados em
28 de outubro de 1828, pelo Monsenhor Malheiros, a bordo dos
veleiros "Luiza" (um brigue) e "Marquês
de Viana" (um bergantim), com destino a Desterro (hoje
Florianópolis), sul do Brasil, onde aportaram, respectivamente,
em 07 e 12 de novembro de 1828. O brigue "Luiza"
transportou 276 pessoas e o bergantim "Marquês
de Viana", 359 pessoas.(12)
Após
a chegada ao Desterro, os que foram transportados pelo bergantim
"Marquês de Viana" ficaram alojados nos quartéis
da capital catarinense (campo de manejo), juntos aos Batalhões
8º, 18º, 27º e 4º de artilharia, enquanto
os que vieram no brigue "Luiza", por haverem adoecido
durante a viagem, foram "hospedados", involuntariamente,
"livre de comunicação", e completamente
isolados na Armação da Lagoinha -- antigo estabelecimento
de pesca de baleias fundado na costa oriental da Ilha de Santa
Catarina. Lá, também, estava aquartelado o 14º
Batalhão do Exército. Neste estabelecimento
os imigrantes foram amparados, no que tange à assistência
médica, por conta do governo provincial. Completamente
isolados e em plena ociosidade, requereram, naquela localidade,
terras para cultivar e de cuja solicitação não
obtiveram resposta.
Assim
ficaram os imigrantes, tanto os transportados pelo "Luiza"
quanto os pelo "Marquês de Viana", à
espera, impacientes e em parte desanimados diante da morosidade
dos poderes constituídos referente aos encaminhamentos
elementares visando a sua transferência para a mata
virgem.
--
Essa
morosidade tinha motivo: as terras destinadas a recebê-los
ainda não haviam sido demarcadas e, portanto, não
havia condições humanas para "enfrentar"
a floresta. Assim esgotaram-se, nos quartéis, os últimos
50 dias de 1828. Lá passaram o natal e o ano novo,
rolando aqui, empurrados dali, sem nenhuma privacidade, dividindo
espaço com os soldados da campanha - nenhum cronista
registrou como viveram, suas espectativas e esperanças,
como reivindicaram seus direitos, como sobreviveram e como
ocuparam-se diariamente durante aqueles meses mais longos
de suas vidas. Irritados e impacientes diante da insegurança
provocada pela peculiaridade da situação, homens
habituados ao trabalho e agora ociosos, curtiam desgosto próprio
e alheio nas dependências de alojamentos humilhantes.
O
governo provincial catarinense não pudera executar,
por conseguinte, antes da chegada dos imigrantes, quaisquer
medidas práticas, embora indispensáveis, à
instalação ao menos de um núcleo colonial,
à falta justamente de decisões administrativas
prévias da Corte e do envio dos respectivos recursos
financeiros pelo Tesouro Público. Enquanto isso, todo
o grupo de imigrantes permanecia alojado nos quartéis
do centro da cidade ou na Armação da Lagoinha,
em situação análoga ao caos psicológico
e material. No decorrer desse tempo muitas queixas foram apresentadas,
ora ao governo catarinense ora às autoridades ligadas
à colonização, na Corte, por causa da
situação difícil decorrente do alojamento
que a cada dia se agravava. Queixavam-se, outrossim, da iminente
perda das sementes, trazidas da Alemanha, destinadas às
primeiras culturas na nova colônia. Em mostra de impaciência
e irritação, um grupo de 26 imigrantes alojados
na Armação da Lagoinha, não obstante
a beleza paradisíaca da praia em cujas imediações
se encontravam, em petição datada de 25 de janeiro
de 1829, reiterava ao presidente Albuquerque Mello, da Província
de Santa Catarina, seu pedido no sentido de encaminhá-los
sem novas delongas para o núcleo colonial, como lhes
havia sido prometido ainda na Europa. Manifestando o desejo
de sair da imposta e exasperante ociosidade, ofereceram-se
àquele governante para realizar trabalhos, como, por
exemplo, a abertura de estradas. Veja parte do teor da petição:
"...
uma vez mais tomam a liberdade de suplicar à
V. Exa. que os fará transportar à colônia,
o mais cedo possível. E eles já apresentaram
à V. Exa. uma relação do quanto
eles têm sofrido, desde que saíram de sua
pátria, há quase um ano, e não
podem deixar de recear que o tempo que aqui tem de estarem
lhes será tristíssimo. A maior parte deles
trouxe sementes de proveitosas plantas, que querem experimentar
se aqui produz, mas com a dilatação do
tempo, se tornaram incapazes disso e, conseqüentemente,
perdem-se. Se há algum trabalho a fazer, como
caminhos etc. os colonos para isso se oferecem a V.
Exa. (...) E como desejam ocupação, e
por isso lhes ser muito agradável que V. Exa.
se digne ocupá-los, o mais breve possível,
no emprego acima suplicado".(13) |
Entretanto,
em 25 de outubro de 1828, antes mesmo da chegada dos imigrantes
a Desterro, um Aviso Imperial determinava ao Presidente da
Província que os colonos transportados no bergantim
"Marquês de Viana" fossem estabelecidos, necessariamente,
entre Desterro e a vila de Lages no lugar que "mais comodidade
oferecer para uma povoação". Além
disso, o citado Aviso Imperial determinava, também,
a concessão da diária de 160 réis para
cada imigrante no decorrer de um ano, cujo pagamento deveria
ser efetuado pela Junta da Fazenda da Província de
Santa Catarina.
Não
obstante a inexplicável demora, os imigrantes do "Marquês
de Viana" ficaram amedrontados pela notícia de
que os indígenas freqüentavam o vale do Maruí,
nas imediações de onde seriam instalados; por
isso, muitos ficavam temerosos e se recusavam terminantemente
a sair da cidade. Este terror precipitado poderia fazer malograr
o futuro estabelecimento colonial se o Presidente da Província
não os animasse, usando como argumento a concessão
da diária de 160 réis a cada colono que se deslocasse
até o lugar determinado para a fundação
da colônia. Este incentivo foi bem sucedido e teve ótimos
resultados.(14)
Em
função do Aviso Imperial datado de 25 de outubro,
o Presidente da Província ordenou imediatamente ao
Major de Milícias reformado, Silvestre José
dos Passos, conceituado homem público e último
morador às margens da projetada estrada para Lages,
no vale do Maruí, para que fosse reconhecer o "lugar
que mais comodidade oferecer", sua salubridade e fertilidade
para a fundação de uma colônia.(15)
Concluído
o reconhecimento do sertão, em 7 de dezembro de 1828,
Passos apresentou à administração provincial
um relatório onde, apesar de admitir a falta de conhecimentos
para bem incumbir-se da missão, apresenta uma "tosca
configuração e descrição do projetado
estabelecimento" de uma povoação. Albuquerque
Mello, dois meses após, pela portaria de 09 de fevereiro
de 1829, nomeou Passos diretor da "Colônia dos
Alemães", com a incumbência de implantar
"a abertura da projetada estrada" para Lages e de
erguer os edifícios necessários para a recepção
dos imigrantes. Eram conseqüências das imperiais
determinações recebidas.
Decorridos
quase três meses após a chegada do bergantim
"Marquês de Viana" à Ilha de Santa
Catarina, em 11 de fevereiro de 1829 o primeiro grupo de imigrantes
alemães foi transportado para a freguesia de São
José, onde ficaram temporariamente alojados. Em 17
de fevereiro, eles ainda lá continuavam retidos. Motivo:
falta de ferramentas e de recursos financeiros para prosseguir
o trabalho. Além disso, uma grande enchente inundara
as várzeas do rio Maruí, tornando-a intransitável.
Mas, em 1º de março, sabe-se, por carta subscrita
pelo próprio diretor de colônia, que a leva inicial
de imigrantes, aproximadamente 60 pessoas, já se encontrava
alojada nas dependências de seu engenho localizado no
sertão de São José, no vale do Maruí.
Após terem feito derrubadas na mata, construíram
uma palhoça com a extensão de 50 palmos de comprimento
e implantaram parte da estrada ("até o ribeirão
do Planxão"). Naquela data, estavam, de acordo
com a carta do diretor, empenhados na edificação
de mais uma palhoça e alguns barracões para
a moradia provisória das famílias.(16)
As
ordens transmitidas pelo governo imperial a Albuquerque Mello
a respeito da localização dos imigrantes alemães
em solo catarinense mencionavam, invariavelmente, no início
e até meados de 1829, apenas os colonos transportados,
do Rio de Janeiro para Santa Catarina, no bergantim "Marquês
de Viana". Faltava, portanto, em inexplicada incúria,
instrução da Corte quanto aos colonos trazidos
no brigue "Luiza" e alojados, provisoriamente, na
Armação da Lagoinha. Tudo indica, porém,
que o presidente da província felizmente percebeu logo
a gravidade de tal deficiência e tratou de bem solucionar
o problema, não sem antes terem ocorrido perturbações
de ordem interna. Em evidente propósito de minorar
os sofrimentos dos imigrantes e a fim de atender, satisfatoriamente,
ao menos parte dos rogos e reclamações que lhe
estavam sendo apresentados desde os primeiros meses e ao longo
de 1829, foram encaminhados aos poucos, sob o silêncio
da Corte e responsabilidade pessoal do Presidente Albuquerque
Mello, para a "Colônia dos Alemães"
dirigida por Passos, os colonos abrigados na Armação
da Lagoinha.
Em
janeiro de 1830, ainda estavam aquartelados na Armação
da Lagoinha muitos ex-soldados do 27º Batalhão
destinados à futura colônia. Estavam desgostosos
e extremamente impacientes, resultado da ociosidade, do atraso
no pagamento da diária de 160 réis, bem como
de sua transferência para a colônia. Por isso,
exigiram, rudimentarmente, a solução imediata
dessas pendências. Os desgostosos deslocaram-se da Armação
da Lagoinha para o centro da cidade, onde atacaram a casa
do Presidente da Província, insultando-o atrozmente.
Para fazê-los calar, o Presidente, diante da falta de
recursos públicos, paliativamente solicitou a um negociante
que lhes adiantasse uma certa soma em dinheiro, sob a sua
garantia pessoal. Assim,
"Sossegaram
alguns dias os colonos, mas voltaram novamente às
representações e depois ao desacato
formal. Intervindo a força pública,
foram presos 15 dos turbulentos, mais em evidência,
e enviados processados, com competente devassa, para
a corte, pela charrua 'Jurujuba' em abril seguinte".(17) |
Quem
consulta as poucas fontes históricas existentes sobre
esses episódios, não foge à impressão
de que o retardamento no envio dos colonos a seu destino prende-se
ao fato de não haverem providenciado, a tempo, a abertura
completa da estrada e a necessária demarcação
das terras destinadas a mais de cem famílias. Um dos
vigários de São José, e um dos poucos
historiadores sobre os primórdios da colônia
apresenta, em sua afamada memória histórica,
a "certidão da nascimento" de São
Pedro de Alcântara:
"O
inspetor da colônia, apenas recebeu as ordens
e instruções com que devia dar princípio
à sua comissão, marchou a explorar o terreno
para o futuro estabelecimento. Logo que chegou às
terras devolutas, depois de tê-las examinado minuciosamente,
escolheu o lugar que lhe pareceu mais azado para servir
de logradouro público ou arraial, e aí
demarcou um quadro, em cujo meio deixou uma pequena
praça bordada de duas ruas, que denominou, uma
de São Pedro de Alcântara e outra de Albuquerque.
Em seguida fez levantar vinte palhoças, para
nelas receber os colonos, até que estes fizessem
casa dentro das datas que lhes deviam ser demarcadas..."(18)
|
Na
mata virgem, os trabalhos elementares eram executados de uma
forma paulatina, mas progressiva. Em 10 de maio de 1829, Silvestre
José dos Passos, dando ciência do desenvolvimento
dos serviços a ele confiados, afirma já ter
construído 36 palhoças para a habitação
provisória dos imigrantes. Com relação
à estrada projetada, afirma que sua implantação
chega ao local denominado "Galão". Cita alguns
acidentes ocorridos com os imigrantes quando da derrubada
da mata: "estes acontecimentos e outros de acidentais
moléstia é bastante motivo para lastimar o estado
destes colonos, em desamparo da medicina, igreja e cemitério".(19)
Diante
dos contratempos quando do alojamento nos quartéis
das 146 famílias que se destinaram a formar a nova
colônia, 14 se deixaram ficar na cidade e seus arrabaldes
e, por isso, só 132 datas foram demarcadas para igual
número de famílias. Cada data media de 50 a
100 braças de frente, segundo o número de pessoas
que continha cada família; todas, porém, com
750 de fundos, cujas frentes davam à estrada que conduz
à freguesia de Lages.(20) Essas terras que a princípio
seriam férteis, além de sáfaras e de
superfícies acanhadas, demostravam qualidade mediana
e, às vezes, até infrutífera.
DISTRIBUIÇÃO DE LOTES
DE TERRA (21)
N. |
IMIGRANTES |
E. CIVIL |
FILHOS |
EXTENSÃO |
POSSE |
LOCALIZAÇÃO |
01 |
Karl Payeken e
Wilhelm Ruete |
Solteiros |
__ |
100 x 800
braças |
09-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
02 |
Nikolaus Deschamps e
Katharina Eich |
Casado |
03 |
65 x 800
braças |
09-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
03 |
Heinrich Bohnen e
Maria Ângela Brandt |
Casado |
06 |
75 x 800
braças |
09-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
04 |
Johann Hansen e
Katharina Münter |
Casado |
__ |
70 x 800
braças |
10-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
05 |
Johann Klocker e
Anna M. Deschamps |
Casado |
__ |
34 x 800
braças |
10-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
06 |
Heinrich Conrad e
Ana Barbara Welter |
Casado |
06 |
55 x 800
braças |
10-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
07 |
Franz Caspar Ostermann e
---------------------- |
Viúvo |
__ |
30 x 800
braças |
13-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
08 |
Johann Alflen e
Katharina Mertens |
Casado |
01 |
42 x 800
braças |
22-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
09 |
Matthias Palm e
Maria Philippi |
Casado |
05 |
100 x 800
braças |
22-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
10 |
Georg Wagner e
Maria K. von Kurz |
Casado |
06 |
100 x 800
braças |
22-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
11 |
Christoph Schmitz e
Cristina Gesser |
Casado |
02 |
80 x 800
braças |
23-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
12 |
Johann Gesser (22) |
Viúvo |
05 |
60 x 800
braças |
23-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
13 |
Konrad Dör e
Maria Anna Rohrs |
Casado |
02 (23) |
80 x 800
braças |
23-07-1829 |
Lado norte da
Estrada |
14 |
Johann J. Gödert e
Maria Anna Schwartz |
Casado |
05 |
80 x 800
braças |
11-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
15 |
Jakob Neckel e
Maria Gertrud Wolf |
Casado |
05 |
104 x 800
braças |
11-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
16 |
Matthias Meurer e
Anna M. Martendahl |
Casado |
__ |
60 x 800
braças |
14-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
17 |
Johann Martendahl e
Katharina Normann |
Casado |
08 |
108 x 800
braças |
11-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
18 |
Matthias Rinkus e
Anna Maria Hesser |
Casado |
03 |
80 x 800
braças |
15-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
19 |
Peter Conradi e
Maria M. Thomas |
Casado |
02 |
77 x 800
braças |
16-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
20 |
Christoph Sabel e
Agnes Conradi |
Casado |
01 |
80 x 800
braças |
17-07-1829 |
Lado sul da
Estrada |
No
início da instalação da colônia,
um novo surto de insatisfação geral invadiu
os imigrantes: além de atraso no pagamento das diárias
a que faziam jus, havia agora condições imprevistas
e adversas de duro trabalho na mata: as terras, além
de íngremes e de pouca fertilidade, mostravam-se, em
grande parte, desfavoráveis às atividades rurais.
Já em fevereiro/março de 1829, portanto, durante
os trabalhos iniciais no local escolhido para o estabelecimento
da colônia, principiaram a ocorrer as primeiras deserções:
algumas famílias decidiram fixar residência em
Desterro e em São José, outras foram instalar-se,
a partir de 6 de maio de 1830, na região do Alto Biguaçu
(Louro),(24) lançando os alicerces da cidade de Antônio
Carlos. Naquela ocasião, solicitaram, também,
a concessão de terras mais adequadas às atividades
rurais no Patrimônio das Caldas do Cubatão(25)
(hoje Caldas da Imperatriz e Águas Mornas). Tal pedido,
porém, foi indeferido, sob a justificativa de que aquelas
terras não eram devolutas e, além disso, porque
estava fora do trajeto do projetado Caminho-de-Tropas para
Lages.
Viram
logo os colonos que toda a região onde estavam instalados
não era apenas acidentada, mas ainda muito pedregosa,
dificultando qualquer lavoura. A própria sede do arraial
de São Pedro de Alcântara, a futura freguesia,
apresentava-se apertada entre colinas, com pouca possibilidade
de tornar-se um centro maior. E os alemães recém-vindos
se perguntavam se não havia em toda a Província
de Santa Catarina terras mais próprias para o amaino
e o plantio. Havia muito mais e bem melhores. Entretanto,
ficara decidido por escalões superiores que o "caminho
de sertão" em direção aos campos
de Lages devia passar por ali. Era a razão de ser da
"Colônia dos Alemães" ali fundada.
Após
os colonos terem recebido suas terras, executada a derrubada
e iniciada a plantação, algumas fontes históricas
no levam a crer que, para infelicidade dos imigrantes, uma
parte destas ainda estava onerada com títulos de propriedade
mais antiga. Formaram-se contendas e processos que, afinal,
foram liquidados pela compra das mesmas terras pelos imigrantes.(26)
O cotidiano dos primeiros anos foi marcado pela insegurança
gerada por problemas fundiários e pelas deficiências
dos serviços públicos essenciais.
Ordens
do governo imperial a respeito do estabelecimento definitivo
dos imigrantes transportados pelo "Luiza" em solo
catarinense só viriam, aliás, através
do aviso de 14 de julho de 1829, quando alguns já haviam
sido instalados, por obra e graça do Presidente da
Província, na colônia: eram destinados a formar
uma segunda colônia teuta, separada da dos imigrantes
transportados no "Marquês de Viana", sobre
a estrada São José a Lages e que ficaria situada
meia légua mais para o interior, além de São
Pedro de Alcântara. Lá deveriam ser instalados,
"dando-lhes terras apropriadas e mandando-lhes fazer
acomodações". Essa segunda Colônia,
denominada de Santa Filomena, de acordo com sua concepção
estratégica no Caminho-de-Tropas, nunca foi implantada,(27)
mas evidencia a execução do antigo plano militar
de estabelecer duas povoações no caminho que
conduzia a Lages que serviriam de base estratégica
para fustigar possíveis inimigos invasores da Ilha
de Santa Catarina. Assim temos a evidência de que a
idéia de serem duas colônias foi mantida em 1829:
meia légua acima do primeiro núcleo colonial
seria estabelecido um outro, com os colonos vindos da Lagoinha.
Instalados
nos lotes coloniais os imigrantes construíram, então,
sua primeira obra comunitária. Nascia da contribuição
dos colonos a primeira igrejinha no topo da serra de Santa
Filomena, junto às nascentes do Rio do Louro, para
cuja padroeira escolheram a Santa Bárbara. Supomos
que era tosca, de madeira bruta, construída com folhas
de palmeiras, da mesma forma como seus ranchos de palha, cujas
paredes e cobertura foram confeccionadas com as folhas trançadas
da palmeira guaricana e em cujas dependências o vento
sul soprava pelas gretas nos domingos frios de inverno rigoroso.
Mas eles sentiam necessidade de se robustecerem na esperança
e na fé e de continuarem unidos diante das adversidades
naturais da incipiente vida na floresta virgem.(28) Contíguo
à pequena capela foram enterrados os pioneiros imigrantes,
que não resistindo às adversidades da "vida
nova", cederam a sua existência. A cada domingo,
ou após o culto divino, visitavam os túmulos
dos entes queridos. Ali, além das lágrimas,
semeavam a esperança de uma vida melhor. Emergiu então,
em plena floresta, um minúsculo aglomerado habitacional,
a base da incipiente fundação colonial, constituindo-se
no "centro" devocial e social dos imigrantes.
Instalada
a Colônia dos alemães, era preciso denominá-la.
Disso encarregou-se o Presidente da Província Albuquerque
Mello. Em mensagem datada de 11 de julho de 1829, comunicou
ao imperial ministro José Clemente Pereira que dera
à "Colônia dos Alemães" a denominação
oficial de São Pedro de Alcântara, "em atenção
à família imperial reinante".(29)
 |
Dom
Pedro I, por Manoel Antônio de Castro. |
Das
muitas promessas que já na Alemanha haviam sido feitas
aos imigrantes por meio de agentes do governo brasileiro,(30)
somente algumas foram cumpridas: a das terras gratuitas e
de madeiras quantas precisassem cortar. Deixaram, entretanto,
de receber as ferramentas, a diária, as sementes. Miguel
de Souza Mello e Alvim, quando Presidente da Província,
fez várias representações escritas à
Corte (Rio de Janeiro), taxando de "indecoroso"
o procedimento do Governo Imperial em relação
aos colonos de São Pedro de Alcântara, "cujos
habitantes (dizia) são bons, laboriosos, mas estão
sofrendo as maiores misérias, por motivos que eles
não têm culpa".(31)
O
primeiro diretor da colônia, Silvestre José dos
Passos, fazendeiro aposentado , que, por sua idade avançada,
já havia pedido repetidas vezes exoneração
do cargo, "por não concorrerem em mim (argumentava)
os requisitos que exige um tal serviço". Passos
exerceu seu cargo somente até o momento em que todos
os imigrantes tinham tomado posse de seus terrenos. Eleito
e nomeado Juiz de Paz da freguesia de São José,
onde assumiu seu cargo em 25 de janeiro de 1829, deixou a
administração da colônia a 06 de fevereiro
de 1830. Depois, os imigrantes elegeram Nikolaus Henkenn (Heinzen?)
como líder e, após a morte deste, seu filho
Peter Henkenn (Heinzen?).(32) Sucedeu a Passos, na função,
o súdito alemão João Henrique Soechting,
que havia sido tenente do 27º Batalhão de Caçadores
e participara, até o ano anterior, na campanha militar
do Império contra as províncias unidas do rio
da Prata.
No
mês precedente a essa troca de diretores, e apenas doze
dias após sua posse no governo provincial, o presidente
Mello e Alvim fez, a 26 de janeiro de 1830, acompanhado de
várias autoridades,(33) uma excursão a São
Pedro de Alcântara, com o propósito de inteirar-se
da situação dos colonos.
Dessa
viagem de inspeção ele depois deu notícia
(ofício n. 14, de 15 de fevereiro de 1830) ao Marquês
de Caravelas, novo Ministro do Império, no qual manifestava
sua admiração pelo trabalho imenso que, "assim
como por encanto, no curto prazo de seis meses", "aquela
laboriosa e infatigável gente" havia feito em
terreno áspero e montanhoso, convertendo o sertão
ínvio "em terreno cultivado coberto de seara de
milho, trigo, legumes e todas as plantas do país, além
de outras cujas sementes trouxeram da Europa". Justamente
por isso, no mesmo relatório, o presidente da província
cobrava do governo imperial, reiterando os pedidos de seu
antecessor, o reinício do suprimento regular a Santa
Catarina, pelo Tesouro Público, de recursos financeiros
destinados ao pagamento das diárias de subsistência
dos colonos, como meio indispensável de garantir a
continuidade do elogiado trabalho realizado em São
Pedro de Alcântara.(34)
Na
visita que fez Mello e Alvim a São Pedro de Alcântara
resultou que, na ocasião, in loco, determinasse ao
agrimensor e sua comissão(35) a abertura de um caminho
rumo do norte, em direção ao Rio Biguaçu,
para que lá fizessem demarcar um lugar para a instalação
da freguesia; a futura sede do núcleo colonial. Seguindo
as orientações de Mello e Alvim, concluiu a
comissão da impossibilidade da abertura do solicitado
caminho em função do terreno excessivamente
montanhoso. Mas, em 14 de fevereiro de 1830, o diretor João
Henrique Soechting, em carta ao Presidente da Província,
anuncia que a referida comissão descobriu, rumo do
sul, a apenas 300 braças da estrada velha, uma planície
que teria mais de 200 braças de extensão, além
de bastante água. O Presidente Mello e Alvim responde
à Soechting argumentando que não poderia definir
o lugar da freguesia sem antes empreender nova visita à
colônia. Assim, a definição da localização
da freguesia foi protelada.
Em
relatório sobre sua visita à colônia,
o Presidente Mello e Alvim reclama da distribuição
dos lotes de terras aos imigrantes, cujo ato teria sido feito
sem critério e, portanto, segundo ele, o mais irregular
e injusto possível. Continua seu relatório afirmando
que a administração provincial, após
a suspensão do pagamento das diárias para subsistência
dos imigrantes, faz todo o possível,
"para
reduzir esta desgraçada gente, no meio de uma
terra inóspita, para onde vieram atraídas
pelas mais brilhantes promessas, à dura alternativa,
ou de desertarem, abandonando suas mulheres e filhos
à desesperação e à miséria,
ou de sucumbirem todos vítimas da mesma miséria,
privações e fome. (...) Contudo poucos
desanimaram. Eles se lançam avidamente ao trabalho:
os rigores do tempo, a rudeza selvática do país,
nada pode empecê-los: homens, mulheres e crianças,
tudo trabalha com maior acerto, e a mais acizada distribuição
de serviços; enquanto os mais robustos derrubam,
queimam matas e plantam a terra, os outros, e as crianças
cuidam na construção de suas casas, tecem
os tetos de palha, para as cobrir, tratam de toda a
economia doméstica, e assim, como por encanto,
no curto prazo de seis meses, aparece um espaço
de três léguas de comprimento sobre 200
braças de largura, convertido de sertão
bárbaro e intransitável, em terreno cultivado
e coberto de seara de milho, trigo e legumes e todas
as plantas do país, e de outras cujas sementes
trouxeram da Europa, assim como povoados de pequenas
e cômodas habitações edificadas,
com uma facilidade verdadeiramente pasmosa".(36)
|
Insistia
o Presidente Mello e Alvim, por fim, pela solução
das súplicas dirigidas ao governo imperial pelo seu
antecessor, por três vezes - em 6 de agosto, 9 de setembro
e 17 de novembro de 1829 - porque dizia não mais ser
possível ministrar aos colonos os socorros que lhe
foram prometidos e assim seria melhor desenganá-los
de uma vez e renunciar definitivamente ao projeto de fundação
de alguma nova colônia.(37) Era o governo assumindo
suas limitações e desobrigando-se das promessas
empenhadas na promoção da colonização.
Com
a instalação de novas famílias, a colônia
faz sua população aumentar. Em setembro de 1830,
o diretor Soechting realiza levantamento censitário
e constata: 154 famílias, sendo 136 na estrada para
Lages e 18 no Alto Biguaçu (Louro). Outro recenseamento,
efetuado em dezembro do mesmo ano, indicava ligeiro aumento
da população: 168 famílias, com 652 pessoas,
377 homens e 275 mulheres, aí incluídos adultos
e crianças.(38) Quando estavam os colonos colhendo
de seus primeiros roçados e de seus quintais à
beira-rio, frutos do suor e de lágrimas incontidas,
caiu sobre São Pedro de Alcântara, a 15 de abril
de 1830, um devastador temporal com granizo, arruinando a
maioria das lavouras. A 13 de novembro do mesmo ano, outra
tempestade bem mais ruinosa, infligiu desânimo.(39)
Terceira devastação veio a 15 de dezembro do
mesmo ano: a lei que proclamava "abolida em todas as
Províncias de Império a despesa com a Colonização
Estrangeira". Este ato administrativo equiparou-se, indiretamente,
a um virtual decreto de emancipação da colônia.
Era um inesperado presente de Natal que a Corte reservara
aos colonizadores e que, por conseguinte, retraía o
governo imperial de qualquer cooperação direta,
abandonando sua iniciativa de promover e dirigir a imigração.
Bem podemos imaginar a insegurança que tomava feições
de desespero reinante entre a população. Enquanto
o governo ensaiava, aos poucos, um forçado esquecimento
da colônia e de seus habitantes, paradoxalmente, o núcleo
colonial chamava a atenção de viajantes estrangeiros...
Em
outubro de 1835, um conde dinamarquês, Frederik Christiam
Raben, visitando São Pedro de Alcântara, descreve
aspectos botânicos, entre os quais extraímos
os seguintes registros históricos que anotou em seu
diário:
"Uma
doença denominada mal-de-terra é comum
aqui (São Pedro de Alcântara). As pessoas
ficam pálidas, perdem energia, e se vai longo
tempo de recuperação. Diz-se provir de
má dieta. Muitos são pobres. O povo em
geral só come carne-seca com farinha de mandioca
e milho torrado em lugar de café. A saudade parece
torturar a maioria dos colonos, que desejam voltar para
a sua pátria, mas a maior parte não pode
por falta de recursos. (...) Foram-lhe feitas promessas
que terminaram mal cumpridas. Não há escolas.
Se as crianças necessitam aprender algo, os próprios
pais precisam ensiná-las. (...) Um fulano separou
madeira para construir uma igreja, mas a obra parou.
Na Colônia há duas ou três capelas,
onde o povo se reúne para orar e cantar".(40)
|
Diante
de parte das promessas não cumpridas, de compromissos
desonrados, de terras íngremes e de baixa fertilidade,
os colonos de São Pedro de Alcântara, desiludidos
com a "terra prometida", em 1836 começaram
a migrar. Reiteraram a solicitação de terras
nas imediações de Caldas do Cubatão e
lá fundam Vargem Grande(41) migram também para
o vale do Itajaí Açu, onde lançam os
fundamentos das povoações de Belchior e Pocinho
- hoje município de Gaspar - e também de Brusque.(42)
Posteriormente, toda Santa Catarina, e por extensão
o Brasil, foi recebendo sementeira do braço forte dos
colonos desse núcleo pioneiro.
A
13 de abril de 1844, o presidente da província de Santa
Catarina, Antero José Ferreira de Brito, após
a aprovação da Assembléia Legislativa,
sancionou a lei n. 194, que erigia em freguesia, e à
condição de Paróquia em 23 de abril,
com os limites que indicava, o arraial da Colônia São
Pedro de Alcântara, com patrono homônimo,(43)
desmembrando-o da paróquia da Vila de São José.
Pouco depois, a lei n. 250, de 31 de março de 1848,
alterava os limites orientais da nova freguesia. Confirmada
pelo Bispo do Rio de Janeiro, em visita pastoral à
Província, em 1845, o citado prelado "encarregou-nos
o regime da nova paróquia", escreve o Pe. Joaquim
Gomes de Oliveira e Paiva, que paroquiava em São José.
Efetivamente a nova paróquia começou a funcionar
alguns anos mais tarde, ficando ao encargo do Monsenhor Manoel
Joaquim da Paixão, que também acumulava a função
de vigário de São José.
"Nesse
tempo os colonos, querendo também partilhar da
munificência de S. M. o Imperador, dirigiram-lhe
um requerimento, pedindo-lhe uma esmola para a reedificação
da nova matriz; o digno monarca, pronto sempre a fazer
generosos donativos em prol dos templos e estabelecimentos
pios, os acolheu favoravelmente, indagou com interesse
a respeito do estado da colônia, e mandou entregar
ao presidente da Província certa quantia para
ser aplicada ao conserto da matriz de São Pedro
de Alcântara. Os alemães ficaram encantados
da afabilidade com que o Imperador os recebeu (tratava-se
já de D. Pedro II), e não cessaram de
falar do augusto filho da arquiduquesa Leopoldina -
assim se exprimiam em referência à virtuosa
primeira Imperatriz do Brasil de saudosa recordação".(44) |
Encarregado
pastoralmente da móvel paróquia, o Pe. Paiva,
em 26 de maio de 1845, realizava sua primeira visita a São
Pedro de Alcântara para ali oficiar atos religiosos.
Dessa visita primeira, Pe. Paiva anotou detalhes impressionantes
sobre o desenvolvimento da colônia e costumes de seus
habitantes. Assim descreve:
"Ao
entrar no arraial da colônia não se oferece
outra vista além de uma larga rua, que conterá
vinte edifícios, e cujos intervalos serve de
praça; porquanto os alemães, apartando-se
do risco que lhes dera o inspetor Passos, julgaram mais
conveniente estender-se pela margem do Maruí.
Contudo, ainda que pequeno, o arraial apresenta um agradável
e interessante aspecto, máxime nos dias em que
os colonos aí concorrem para a celebração
dos ofícios divinos(...). Durante o sacrifício
da missa... não pude deixar de sensibilizar-me
a ver até os meninos de seis anos cantar de cor
muitos dos salmos, pronunciando admiravelmente as palavras
latinas. A um dos lados da igreja está o cemitério,
onde, além de uma grande cruz plantada... observei
outras muitas, porém pequenas, fincada sobre
cada sepultura, e todas enfeitadas de flores e festões
de papel picado, muito principalmente as que assinalavam
os jazigos de inocentes. Enquanto dura a visita paroquial...
os colonos, católicos romanos, à exceção
de três ou quatro famílias luteranas, não
perdem um só dia de missa... para o que desprezam
a longitude de três ou quatro léguas, muitas
vezes por caminhos intransitáveis".(45)
|
A
colônia São Pedro de Alcântara florescia
às margens da estrada que a atravessa em direção
à vila de Lages. Mas, poucos anos mais tarde, o governo
veio a construir, na mesma direção de Lages,
uma estrada paralela até o alto das Taquaras, na Serra
da Boa Vista, de trânsito mais fácil e talvez
menos íngreme,(46) que subia o Vale do Cubatão,
via Santo Amaro da Imperatriz e Águas Mornas. A transferência
de parte do trajeto da estrada via vale do Cubatão,
em detrimento do vale do Maruí, "isolou"
economicamente São Pedro de Alcântara, em função
da privação do comércio fomentado pelos
transeuntes, principalmente os tropeiros. Foi a estagnação
econômica de São Pedro de Alcântara.
Alguns
anos mais tarde a população da colônia,
em 1848, contava com 145 famílias num total de número
de 700 habitantes, não contando neste número
muitas famílias que mudaram o domicílio para
a margem dos rios Biguaçu, Tijucas e Itajaí,
e muitos que residiam na vila de São José e
na capital. Se os colonos tivessem todos permanecidos no ponto
onde foram instalados, de certo poder-se-ia contar na colônia
São Pedro de Alcântara, em 1848, perto de 3.000
pessoas, escreve o Pe. Paiva.(47) Seis anos mais tarde, em
1854, contava a Colônia com 1.500 habitantes, sendo
trinta e tantos escravos, trezentos estrangeiros e mil e tantos
brasileiros, entre descendentes de colonos e naturais do país.(48)
De
acordo com o censo demográfico brasileiro de 1980 o
distrito de São Pedro de Alcântara possuía
a população de 4.701 pessoas. A sinopse preliminar
da população recenseada em 1991 do Distrito(49)
de São Pedro de Alcântara acusa 4.021 habitantes.(50)
Em 1990, iniciava-se um movimento com significativo apoio
popular com o precípuo objetivo de obter a emancipação
político-administrativa do então distrito de
São Pedro de Alcântara do município de
São José. Em 31 de março de 1991, foi
realizado o indispensável plebiscito, quando os eleitores
devidamente inscritos manifestaram-se, com expressiva quantidade
de votos, favoráveis à sua emancipação
político-administrativa.
Cumprido
os trâmites legais e obtida, em março de 1994,
por unanimidade de votos, a aprovação da Assembléia
Legislativa ao projeto de emancipação, ocorreu
a instituição do município de São
Pedro de Alcântara, através da lei n. 9.534,(51)
que, em 16 abril de 1994, então o governador de Santa
Catarina, Dr. Antônio Carlos Konder Reis, fez questão
de sancionar em cerimônia realizada no solo da própria
sede da histórica colônia. Os limites municipais,
inicialmente fixados pela citada lei, foram depois modificados
pela lei n. 9.943, sancionada em 20 de outubro de 1995. A
instalação do novo município ocorreu
a 1º de janeiro de 1997, com a conseqüente posse
do primeiro prefeito e vice eleitos, respectivamente, Sr.
Salézio Zimmermann e José Ademir Deschamps,
bem como dos membros da Câmara de Vereadores.(52)
Passados
175 anos de fundação da Colônia São
Pedro de Alcântara, ao observador ficará caracterizado
que parte dos compromissos do governo imperial relacionados
ao citado núcleo imigratório falharam. E mais
evidente fica ainda que a exeqüibilidade da colonização
não fora devidamente preconsiderada: olhava-se o fim,
olvidando-se dos meios.
Apesar
da falta de planejamento, do núcleo colonial concebido
por estratégia militar e integrado por duas colônias
independentes, a despeito da insuficiência e desorganização
das metas asfixiadas pela burocracia e descaso, a Colônia
São Pedro Alcântara tornou-se âncora histórica,
fixando o exemplo edificante e co-responsável da fibra
de uma comunidade interiorana. Seus imigrantes, na verdade,
desempenharam exatamente o papel que lhes assinalou o promotor
da colonização e patrono do núcleo colonial,
Dom Pedro I: ajudar a fornecer ao sul do Brasil, especificamente
à Santa Catarina, uma população rural,
assegurando o futuro da agricultura, além de eliminar
vazios demográficos. Nesse aspecto, a colônia
São Pedro de Alcântara foi muito bem sucedida.
Esse núcleo colonial não foi apenas o pioneiro
da colonização alemã em Santa Catarina,
tornou-se, também, a célula-mater de inúmeras
povoações, depois ramificadas e o berço
de algumas famílias patriarcais, das quais brotariam,
embora não nascidas em São Pedro de Alcântara,
figuras notáveis, homens de governo, industriais, desportistas,
figuras da igreja (como D. Paulo Evaristo Arns), enfim, líderes
do cenário político, industrial e religioso
de Santa Catarina, com destaque a nível nacional. Seria
de São Pedro de Alcântara que se espalhariam
também, aos milhares, por todo o Estado descendentes
daqueles primeiros imigrantes que, juntamente com outras etnias,
seriam sustentáculo da economia e da sobrevivência
de outros tantos milhares no futuro, desde o mais modesto
agricultor até o mais badalado e influente industrial.
E
hoje, quando vemos tantos nomes de descendência alemã
em destaque nas mais diversas atividades sócio-econômico-culturais
da sociedade catarinense, por certo não avaliamos os
sacrifícios que seus antepassados enfrentaram para
transformar em realidade o sonho de prosperar, conquistando,
a partir da floresta virgem, uma vida mais digna. Nessas ocasiões,
muitas vezes, desconsideramos que seus pioneiros deixaram
para trás seus familiares, sua aldeia natal, sua pátria,
com seu referencial cultural para tentar vida nova no Brasil
e nos legar uma vida mais próspera.
São
Pedro de Alcântara é um marco imigratório
que à memória histórica catarinense convém
preservar para a posteridade: deficiências humanas,
omissão governamental e contingências da natureza
estimularam esses membros da primeira comunidade alemã
instalada em Santa Catarina a desenvolverem uma fibra que
se tornou um exemplo de união e resistência na
adversidade. A vida imprimiu nos imigrantes e nos seus descendentes
tenacidade, determinação pelo trabalho, além
de sólidas bases morais e religiosas; a alguns sorriu
com prosperidade econômica e cultural, enquanto a outros
dotava com indispensável liderança comunitária.
O
estado de Santa Catarina deve aos imigrantes de todas as etnias
que o constituíram, entre elas a alemã, a condição
de seu desenvolvimento econômico e social, além
de uma substancial contribuição para uma economia
agrária invejável. O pouco desenvolvimento da
primeira colônia alemã barriga-verde - São
Pedro de Alcântara - só não foi mais acentuado
devido aos brios desses pioneiros e de seus descendentes:
os atores dessa história da vida real que, em 1º
março de 2004, comemorou 175 anos de existência
no Estado de Santa Catarina.
NOTAS DE FIM
*
Toni
Vidal JOCHEM é bacharel e licenciado em Filosofia pela
Universidade Federal de Santa Catarina. Mestre em História
Cultural pela mesma Universidade, na linha de pesquisa "Migrações,
Cultura e Identidade", sob a orientação
da Profª Dra. Eunice Nodari. É autor dos livros
Pouso dos Imigrantes e A Epopéia de uma Imigração,
e organizador da publicação Sesquicentenário
da Colônia Santa Isabel 1847-1997, Celebração
e Memória. Co-autor do livro São
Pedro de Alcântara: 170 anos depois e organizador
do livro São Pedro de Alcântara - Aspectos
de sua História. Foi coordenador do biênio
comemorativo do 170º aniversário de imigração
alemã de São Pedro de Alcântara - 1998/1999,
membro da Academia de Letras de Biguaçu-SC e sócio
efetivo do Instituto Histórico e Geográfico
de Santa Catarina-IHGSC.
(1)
PAIVA, Joaquim Gomes de Oliveira e. Colonização
Alemã de São Pedro de Alcântara, p.
18. Esta e as demais obras citadas ao longo do texto estão
devidamente indicadas na bibliografia.
(2)
SEYFERTH, Giralda. Identidade étnica, assimilação
e cidadania, p. 105.
(3)
Salientamos que, sob o termo genérico de "alemães",
consideramos todos os que provenham de países que usam
o idioma alemão: procedam da Baviera ou de Württemberg,
ou da Saxônia, ou da Suábia, bem como sejam hanoverianos,
ou bálticos, ou meclemburgueses. Até alguns
luxemburgueses, para efeito de colonização,
muitas vezes, são considerados alemães.
(4)
Cf. FOUQUET, Carlos. O Imigrante Alemão, p.
95.
(5)
Por áreas de língua alemã da Europa Central,
entende-se a atual Alemanha e países vizinhos.
(6)
Existiam, também, doze Freguesias: oito na Capital
- Nossa Senhora do Desterro, Nossa Senhora das Necessidades,
Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da
Lapa, Nossa Senhora do Rosário, São José,
São Miguel e Bom Jesus dos Aflitos. Duas em Laguna:
Santo Antônio dos Anjos e Sant`Ana. Uma em Lages - Nossa
Senhora dos Prazeres e uma em São Francisco - Nossa
Senhora da Graça.
(7)
Cf. JOCHEM, Toni Vidal. A Epopéia de uma Imigração.
Águas Mornas : Ed. do Autor, 1997, pp. 19-52.
(8)
Não foram bem sucedidas as buscas, nos arquivos do
Rio de Janeiro e em Bremen, da(s) lista(s) de passageiros
do navio "Johanna Jakobs". Com relação
ao porto europeu do qual zarpou o "Johanna Jakobs",
a documentação histórica disponível
não é convincente. MATTOS, Jacinto Antônio
de, Colonização..., p. 41, afirma que
os colonos eram provenientes de Bremen; daí a conclusão:
"Johanna Jakobs" zarpou de Bremen. Mas essa informação
é generalizada demais. Nem todos os colonos que em
1828 chegaram no Desterro atravessaram o Atlântico com
o "Johanna Jakobs". No livro de PHILIPPI, Aderbal,
São Pedro de Alcântara..., p. 192, é
transcrito o passaporte de Stefan Kehrig: Autorização
expedida em Koblenz em 28/04/1827, visto do Vice-Consulado
Brasileiro em Amsterdam em 21/04/1828 e visto do Consulado
Prussiano no Rio de Janeiro em 28/08/1828. Anexo ao passaporte
autorização para emigrar, datada de 01/02/1828.
Saída de Düngenheim, passando por Koblenz,
Köln e Leiden(Holanda); destino: Brasil. Veja
também ENTRES, Gottfried, Gedenkbuch..., p.
28. PHILIPPI, Aderbal, pp. 97-107, publicou cartas de Barbara
Kehrig (Düngenheim). Na p. 105, carta de 07/07/1961,
há a seguinte informação: Com este
Stephan Kehrig 60 famílias emigraram do Distrito de
Cochem. Assim é plausível pensarmos na probabilidade
de que o navio "Joanna Jakobs" zarpou de um porto
holandês. Precisamos empreender novas pesquisas...
(9)
A região de Eifel encosta na Bélgica e em Luxemburgo
e "tirou" de localidades como Brohl, Forst, Moselkern,
Treis-Karden, Kaisersesch, Müsntermaifeld etc parte dos
emigrantes enviados a Santa Catarina em 1828. Nicolau Deschamps,
sua esposa Cathérine Eich, e os filhos do casal eram
oriundos de Bliesguersviller, subdistrito de Sarreguemines,
departamento de Moselle, na França. Cf. BOHN, Antônio
Francisco. "Notas à História de Gaspar".
In : Blumenau em Cadernos, Tomo XXXII, Fevereiro de
1991, pp. 51-8 e Tomo XXXII, Março de 1991, pp. 87-94.
DESCHAMPS, Genésio. "Em busca da origem da família
Deschamps". In: Blumenau em Cadernos, Tomo XXXVI,
janeiro de 1995, n. 1, pp. 26-8, e SCHMITT, Elzeário.
"Nicolau Deschamps nascido francês". In: Blumenau
em Cadernos, Tomo XXXVII, julho de 1996, n. 7, pp. 200-201.
(10)
Sobre a "Legião Alemã", cf. LEMOS,
Juvêncio Saldanha. Os Mercenários do Imperador.
Porto Alegre: Palmarinca, 1993.
(11)
Salientamos que nem todos os imigrantes eram alemães.
Nicolau Deschamps, por exemplo, era francês, enquanto
Nicolau Mannes era luxemburguês (Echternach).
(12)
Sabe-se, hoje, que nem todos os imigrantes transportados do
Rio de Janeiro a Desterro (Luiza e Marquês de Viana)
atravessaram o Atlântico com o "Johanna Jakobs".
Em 07/06/1828 partia de Bremen o brigue "Charlotte et
Louise", também trazendo imigrantes para o Brasil.
O brigue "Charlotte et Louise" realizou duas viagens
para o Brasil. Também as embarcações
"Argos" e "Harmonia" faziam a travessia
do oceano transportando imigrantes. Em novembro de 1829 aportou
à ilha de Santa Catarina o brigue "Lucinda"
conduzindo 54 colonos, quase todos ex-soldados do 28º
Batalhão da Corte, os quais foram, também, alojados
na Armação da Lagoinha. Todavia, por motivos
diferentes, apenas parte deles se integrou posteriormente
à vida da incipiente colônia São Pedro
de Alcântara. Em dezembro de 1830 chegava o bergantim
"Santa Catarina", no Desterro, com 9 imigrantes
a bordo.
(13)
MATTOS, Jacinto Antônio de. Colonização
do Estado de Santa Catarina, pp. 49 -50.
(14)
O Pe. Paiva apresenta o saldo diário de 160 réis
como estratagema e chamariz usado para atrair os imigrantes
temerosos. Neste caso, não foi uma ação
muito digna: pois os herdeiros dos fundadores da Colônia
São Pedro de Alcântara até hoje esperam
esta diária, que em tempo algum foi paga a seus antepassados.
Com relação a presença de indígenas
na região de São Pedro de Alcântara, PAIVA
afirma p. 5, que os mesmos "infestavam aqueles sítios";
MATTOS o contradiz, p. 46, quando afirma que "em São
Pedro, pode-se dizer, não havia o temor do gentio".
Esse aspecto histórico em São Pedro de Alcântara
merece aprofundamento.
(15)
Silvestre José dos Passos (natural da Ilha de Santa
Catarina, nasceu, provavelmente, em 1767 e faleceu em São
José a 28/06/1850). A ele, em 08/10/1807, foi concedida
uma sesmaria com a extensão de 400 braças de
frente, "na entrada do Certão do Maruí",
e 800 de fundo, no termo da freguesia de São José
da Terra Firme. In: Segundo Livro de Sesmarias (1806-1814),
p. 45v, no Arquivo Público de Santa Catarina, em Florianópolis.
(16)
Não se conhece, infelizmente, o dia exato em que ocorreu
a primeira entrada dos imigrantes alemães nas terras
da colônia, que poderia servir à fixação
da data de sua fundação. O dia 1º de março
de 1829, posteriormente celebrado como a fundação
da colônia, é apenas a data da carta do diretor
Passos ao brigadeiro Albuquerque Mello, narrando os serviços
que, sob sua orientação pessoal, haviam sido
então executados na mata, no trecho referido do velho
Caminho-de-Tropas para Lages.
(17)
MATTOS, p. 49.
(18)
PAIVA, p. 4.
(19)
MATTOS, p. 44.
(20)
REITZ, Raulino, em Santa Bárbara, p. 32, afirma
que as datas variavam de 30 a 108 braças de frente,
consoante o número de pessoas de cada família,
com 750 braças de fundo. Entre as famílias que
ficaram no Desterro (família Wendhausen) e imediações,
principalmente na Praia Comprida, em São José,
estão: Michels, Bohnen, Lenz, Huber, Mannebach, Schneider,
Zimmermann. Cf. PHILIPPI, p. 47.
(21)
Cf. Coleção "Ficker", no Arquivo Histórico
de Joinville. Cf. também PHILIPPI, Aderbal João.
São Pedro de Alcântara..., pp. 35-6. Na
presente tabela, as 800 braças de profundidade dos
lotes são, apenas, aproximadas.
(22)
Sua esposa, Rosaline Sattlarin, faleceu na Armação
da Lagoinha.
(23)
Enteados.
(24)
Na região do Louro instalaram-se, entre outras, as
seguintes famílias: Schenk/Vieira, Geissbusch/Kraemer,
Kuber(solteiro), Hoener, Meinschein(solteiro), Sieglin(solteiro),
Schwart/Both, Crels(viúva), Holze(solteiro), Schwarz/Schneider,
Schwarz/Hermes, Schwartz(solteiro), Hermes/Reimaelus, Jochem(viúvo),
Bins/Pudinger, Emmerich/Vhors, Soechting/Silva, Revoets(solteiro)
e Ruppel/Kickn, cf. MATTOS, p. 61. Em 30 de abril de 1838,
mediante decreto n. 100, lá foi autorizada a construção
de uma capela e cemitério. Mediante a lei n. 544, de
02/05/1864, criou-se a freguesia (paróquia) de São
Pedro Apóstolo do Alto Biguaçu. No planalto
serrano catarinense instalou-se as famílias Waldrich
e Köche, cf. PHILIPPI, p. 47. Para a região de
São João Batista, no Vale do Rio Tijucas, foram
as famílias Sesterhenn, Becker, Neckel e Schwarz. A
família Grab instalou-se na Vila de São Miguel,
cf. PHILIPPI, p. 48.
(25)
Cf. documento do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Códice:
JA6 159.
(26)
Cf. TSCHUDI, Johann Jakob von. As colônias de Santa
Catarina, p. 79. Cf. também, HANDELMANN,
Gottfried Heinrich. História do Brasil, Tomo II, Col.
Reconquista do Brasil, vol. 66, p. 349.
(27)
Mas, infere-se dessa ordem, que se o presidente Albuquerque
Mello não houvesse agido prontamente, os colonos inicialmente
alojados na Armação da Lagoinha teriam permanecidos
retidos ali, na ociosidade e em deplorável situação,
por quase um ano. Esses, dentre outros fatos, fazem de Albuquerque
Mello credor da gratidão dos imigrantes e de seus descendentes.
(28)
Salientamos que nem todos os imigrantes professavam a fé
católica. Karl Payeken, além das famílias
Lucas, Jasper, Theiss, Müller e Wagner eram, por exemplo,
evangélicos. Hoje, no exato local da capela de Santa
Bárbara, existe uma pequena orada contendo uma cruz
em cujo pé foi fixada uma placa de bronze com a seguinte
mensagem: "Peregrino, o chão onde pisas é
chão sagrado. Aqui, de 1838 a 1915, erguia-se a Capela
de Santa Bárbara, erguida pelos primeiros colonos no
Estado de Santa Catarina. Reverencia os mortos que aqui jazem."
(29)
MATTOS, p. 45. Interessante observar que, não raras
vezes, as denominações das colônias homenageavam
a família imperial; assim temos as seguintes colônias:
São Leopoldo - RJ, Petrópolis - RJ, Santa Amélia
- PE, São Pedro de Alcântara das Torres - RS,
Teresópolis - SC, Leopoldina - SC, Santa Leopoldina
- ES, Santa Isabel - SC e ES, entre outras.
(30)
Cf. OBERACKER, Jr. Carlos H. Jorge Antônio
von Schaeffer, criador da primeira corrente emigratória
alemã para o Brasil. Porto Alegre : Metrópole/Instituto
Estadual do Livro, 1957.
(31)
MATTOS, p. 57.
(32)
Cf. TSCHUDI, p. 78.
(33)
Integravam a comitiva o Comandante de Armas, o Intendente
da Marinha, o Coronel Comandante do Distrito, além
de outras pessoas.
(34)
MATTOS, pp. 54-5.
(35)
Formada pelo Agrimensor, pelo Capitão Domingos de Souza
e José Silveira de Souza.
(36)
MATTOS, p. 55.
(37)
MATTOS, p. 56.
(38)
MATTOS, p. 57.
(39)
Há quase 170 anos depois de fundada a Colônia,
São Pedro de Alcântara ainda continua sendo alvo
de inundações, como, por exemplo, a que tomou
proporções sem precedentes, ocorrida em 11/12/1998.
(40)
REITZ, Raulino. "O diário do Conde F. C. Raben
sobre sua visita à Colônia São Pedro de
Alcântara em 1835". In: Blumenau em Cadernos,
Tomo XXXI, n. 9, setembro de 1990, pp. 195-6.
(41)
Entre as famílias que migraram para Vargem Grande,
hoje município de Águas Mornas, estão:
Kuhnen, Loch, Wollscheidt, Petri, Michels, Philippi, Heinzen,
Westrup... cf. PHILIPPI, p. 48.
(42)
Em função da Lei Provincial n. 11, de 05/05/1835,
migraram para Gaspar (Colônias Belchior e Pocinho) entre
outras as seguintes famílias: Bins, Deschamps, Händchen,
Juchem, Junk, Kehrbach, Klocker, Lucas, Palm, Rausch, Rinkus,
Schneider, Sesterhenn, Simonis, Theiss, Wagner, Müller,
cf. VOIGT, André Fabiano, A Imigração
de Alemães para o Vale do Itajaí(1838-1850),
pp. 20-26.
(43)
Pedro Garavito (posteriormente São Pedro de Alcântara)
nasceu em Alcântara, província de Estremadura,
na Espanha, em 1499. Faleceu em 19/10/1562 e foi canonizado
em 1669. A família real portuguesa era grande devota
do Santo, por isso dois imperadores do Brasil, Dom Pedro I
e Dom Pedro II, receberam no batismo o nome: Pedro de Alcântara.
Por extensão, em 1826 São Pedro de Alcântara
foi, por anuência do Papa Leão XII, instituído
excelso patrono do Brasil.
(44)
PAIVA, p. 7.
(45)
PAIVA, pp. 5-7.
(46)
Hoje BR 282.
(47)
PAIVA, p. 18. O texto cita que "nesta freguesia existe
igualmente para mais de 50 famílias brasileiras, as
quais pela maior parte compostas de lavradores diligentes".
MATTOS cita que, em fevereiro de 1847, a colônia contava
com 742 habitantes. Desses, 120 eram brasileiros e 622 imigrantes
ou descendentes destes. COUTINHO, em sua fala, datada de março
de 1851, diz que na freguesia de São Pedro de Alcântara
conta mais de 1.250 habitantes. Destes, 840 ou mais são
nacionais, 306 estrangeiros e 78 "captivos"(sic).
A influência dos açorianos/portugueses, acima
citados como "famílias brasileiras", em São
Pedro de Alcântara está ainda por ser estudada.
(48)
MATTOS, p. 58.
(49)
O distrito de São Pedro de Alcântara foi criado
pela Lei Estadual n. 22, de 13 de janeiro de 1938.
(50)
Fonte IBGE. In: Anuário (veja bibliografia), p. 77.
Desse total de 4.021 habitantes, 2.087 são do sexo
masculino e 1.934 feminino. Residem na área urbana
396 habitantes, enquanto que a rural perfaz 3.625 indivíduos.
(51)
A referida lei estadual foi publicada no Diário Oficial
do Estado de Santa Catarina, datado de 20/04/1994, n. 14.917,
ano LXI, p. 1.
(52)
A primeira legislatura da câmara municipal de vereadores
de São Pedro de Alcântara é composta por
nove componentes: Dionísio Pauli, Daniel Silveira,
Roberto Stähelin, José Eugênio Schmitt,
Nicolau Pitz, Paulo Schweitzer, Orlando Kuhn, Valter Nei da
Silva e Walter Stähelin.
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ANUÁRIO
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de 27 de agosto). Arquivo da Prefeitura Municipal
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Johann Jakob von. As Colônias de Santa Catarina.
Apresentação e anotações de
Walter |
Fernando
Piazza. Blumenau : Co-edição entre a Fundação
"Casa Dr. Blumenau" e CNPq, 1988. |
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